Horizontes da Filosofia: O Pensamento Débil

klee, Angelus Novus.2014-04-01-08-55-39.jpgReflexões a partir do texto Dialéctica, diferencia y pensamiento débilde Gianni Vattimo.

  1. O pensamento débil pode ser entendido como um movimento filosófico, crítico, emergente do estruturalismo e da fenomenologia, que visa dotar o pensamento de ferramentas metodológicas e conceitos noético-linguísticos capazes de o projectar para o futuro (Gewesenes).
  2. A Διαλεκτικὴ (dialética) e a différance (diferença) surgem como vocábulos que se configuram como pontos cardeais, orientadores do pensar “hic et nunc” e condutores de todo o pensamento estruturado como projeção (para o destino).
  3. Diante da metafísica ontonomogenética – das causas primeiras e dos seus questionamentos e dos princípios dos quais derivam leis – e/ou historicista, de tipo hegeliano, existe uma oportunidade criadora: um procedimento de cunho empirista, mas desprovido de qualquer experiência pura fora dos condicionamentos histórico-culturais, ou melhor, dentro e limitado pela cotidianidade. A verdadeira experiência é o cotidiano, uma experiência sempre qualificada do ponto de vista histórico e impregnada de conteúdo cultural. A ἘΠΟΧΗ husserliana não passa de uma mistificação ao considerar a possibilidade de suspender a nossa pertença a horizontes histórico-culturais, linguísticos e categorias. O Dasein heideggeriano significa precisamente a impossibilidade de abstração dos horizontes constitutivos e contributivos dos próprios entes.
  4. O pensamento débil começa a sua análise com o conceito de dialética. A dialética caracteriza-se por duas noções principais: totalidade e reapropriação. Para Sartre (e Hegel), a verdade é o todo, e a formação autêntica do Homem (ανθρωΠος) consiste em adoptar a perspectiva própria desse todo. A verdade não é desvelamento (como se pudessemos retirar o véu de Maya e ver, tornar manifesto o que estava oculto), é mais um esforço de recompor a realidade de um ponto de vista imparcial que seja capaz de captar a totalidade como tal. Não pode ser ideologia, já que esta disfarça a verdade por ser um pensamento parcial. Assim, reconstruir a totalidade equivale também a voltar a apropriar-se e a dispor-se dela. A reapropriação é mais complexa ainda, porque visa esclarecer as condições a partir das quais é possível estabelecer um ponto de vista total e não ideológico. Para Sartre, esta reapropriação era objectivável no chamado grupo-em-fusão ou grupo revolucionário em ação, já que aí teríamos a teoria e a práxis em unidade e onde a perspectiva de cada indivíduo coincide plenamente com a de todos os outros.
  5. A dialética incide, erradamente, com Benjamin, na ideia de tempo histórico como processo homogéneo sob o qual se fundamenta o progresso. Esta similitude conceptual de tempo histórico como a história, não passa, segundo os teóricos do pensamento débil, de uma manifestação da cultura dos dominadores. A história. concebida como traço unitário, é apenas a história de quem venceu. Constitui-se à custa da exclusão, na memória e na prática, de uma multiplicidade de possibilidades, de valores, de imagens. A revolução encaixa sempre neste procedimento linear da história. E é aqui que é necessário a redenção que traga justiça a todos aqueles que foram excluidos e esquecidos na história dos vencedores. A revolução significa a recuperação dessas verdades perdidas no tempo, dessas opressões e castrações impostas pelo poder da força. Para o pensamento débil, a forma filo-tradicional de pensar a história, essencialmente no século XX, revela uma estrutura noética que, ao limite, desenboca no postulado Adorniano onde a falsidade é o todo. Estamos perante pensadores não da dialética mas da dissolução. O pensamento da totalidade e da reapropriação pretendia assim resgatar tudo aquilo que havia sido eliminado pela classe dominante, mas acabou, como é bem sabido, num poder ditatorial. A differance emerge então como superação do pensamento forte. Não estamos diante de um pensamento totalitário, mas de um existencialismo avant-garde que, remetendo as coisas “para si mesmas” onde a dialética, reapropriação, alienação permanecem como noções metafísicas, que, com os seus conceitos condutores – totalidade do mundo, sentido unitário da história, antropocentrismo e o que fazer com os sentidos – mostram-se como elementos de instrução e consolação. A differance é entre uma metafísica supérflua e repressiva e uma nova, humanista, naturalista e vitalista.
  6. Heidegger, na sua reflexão sobre a diferença ontológica entre ser e os entes, leva o pensamento débil mais longe do que imaginava à partida. Antes de mais, essa diferença significa que o ser não é; “que são” é algo que pode predicar-se dos entes, o ser acontece. Ao dizer “ser”, o distinguimos dos entes apenas quando o concebemos como o acontecer histórico-cultural, como o estabelecer-se e transformar-se daqueles horizontes em que, sucessivamente, os entes se tornam acessíveis aos homens e estes a si mesmos. A análise do Dasein, da sua índole arrojada, desse carácter que o torna a cada momento concreto, emotivamente situado e qualificado, conduz Heidegger a temporalizar radicalmente o a priori. Nesta altura, podemos apenas dizer do ser que é transmissão, envio para o futuro. O mundo experimenta-se dentro de horizontes constituidos por uma série de ecos, de ressonâncias de linguagem, de mensagens provenientes do passado, de outros indivíduos. O verdadeiro ser não é, mas sim envia-se e transmite. O ser que pode acontecer heideggeriano, não apresenta os mesmos traços do ser metafísico, já que ele se configura, se mostra ao pensamento, com caracteres distintos. O pensamento da differance pode conceber-se como o herdeiro que leva às consequência ultimas as exigências dissolventes da dialética. Já não basta a teologia ou o materialismo histórico, mas desenvolver ao pé da letra a sugestão de Sartre: o ser (sentido da história) será património de todos apenas quando consiga dissolver-se em todos. Para o pensamento débil, apenas podemos aceder à debilidade do ser, à sua essência temporal que se manifesta sobretudo no seu carácter efémero, nascimento-morte, transmissão e acomulação. O sujeito é assim constituido e constitutivo do ser e do ser-aí, como agente e como produto.
  7. No século XIX, quando surge o aviso metafísico da “morte de Deus” apenas se mostrava a morte da estrutura estável do ser e, como consequência, toda a impossibilidade de enúnciar que Deus existe ou que não existe. O nihilismo foi a primeira consequência de tal postulado, visando uma primeira tentativa de passagem para o pensamento ultrametafísico, ou seja, um pensamento que rememora o ser, mas que, por isso mesmo, jamais o faz presente, como uma recordação de tempos idos. O pensamento débil pretende finalizar essa transição para o pensamento ultrametafísico. Surge então o conceito de pietas que evoca a mortalidade, a finitude, a caducidade. O ser concebido como pietas significa conceber o verdadeiro transcendental, o que faz possível qualquer experiência do mundo, como caducidade; o ser não é, apenas sucede. Recordar o ser equivale a trazer à memória essa caducidade; o pensamento da verdade não é um pensamento que fundamenta, tal como pensa a metafísica tradicional, mas, pelo contrário, é aquele pensamento que, ao definir a caducidade e mortalidade como constitutivos intrínsecos do ser, leva a cabo uma desfundamentação ou queda. O pensamento débil assume e continua a herança da dialética e conjuga-a com a da differance.


Categorias:Filosofia

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