CINEMA: O CASO SPOTLIGHT

spotlight

O Caso Spotlight. Sábado, 30.I.2016, Braga. Nota: 9/10.

Spotlight era o nome de um pequeno grupo de repórteres de investigação pertencente ao jornal norte-americano The Boston Globe. Foi a partir daqui que, em 2002, Boston e o mundo se confrontaram com o drama das violações de menores perpetradas por padres católicos, com conhecimento da hierarquia, nos 40 anos antecedentes. No inicio desse fatídico ano, a capital do Estado de Massachusetts acordara em silêncio aterrador, desfeita, incrédula com os crimes de pedofilia, a impunidade dos abusadores e com a constatação de que todos, de alguma forma, se deixaram enganar ao longo do tempo e preferiram não escutar e não ver as evidências que, permanentemente, se mostravam. Nós, portugueses, conhecemos bem essa sensação, já que em 2003 surge por aqui o caso Casa Pia, um processo com contorno diferentes mas com uma natureza semelhante. Nos dois casos, a génese dos abusos é a mesma, ou seja, crianças provenientes de famílias pobres e desestruturadas, emocionalmente instáveis algumas delas, carentes e desenquadradas socialmente, ou seja, crianças vulneráveis. Quanto aos abusadores, o padrão é também muito semelhante, são aquilo a que chamo de abusadores de estrutura, pessoas que agem conscientemente, a coberto de uma estrutura social (religiosa, de elite, de grupo, de classe, etc) protectora e permissiva que, negligentemente, lhes incute um sentimento de impunidade. Na verdade estamos no reino da dominação natural primitiva, onde falha a sociedade e a moralidade, onde os mais frágeis, os mais desenquadrados e os indefesos são as vítimas preferenciais de predadores sexuais. Boston e Lisboa mostraram-nos também uma característica inquietante desses abusadores de estrutura: a sua notoriedade social. Vimos que os crimes são cometidos sob uma rede protectora que transmite impunidade ao criminoso, mas o facto de terem uma certa exposição social, com cargos relevantes, prestigiados, faz com que se dissimule os acontecimento, transformando suspeitas em fantasias. Através do seu poder na comunidade, estas pessoas conseguem dominar psicologicamente tanto as vítimas quanto os seus superiores hierárquicos, ou mesmo as pessoas comuns que pertencem à comunidade e que se deixam dominar por razões de diversa ordem (familiares, sociais, convicções religiosas, etc). Um terceiro aspectos aterrador dos abusadores de estrutura é o facto de imporem, pela natureza do seu crime, um medo ou um receio da exposição do crime. Na verdade este poder é um poder conferido indirectamente, é o terror da sociedade perante a verdade criminosa que faz com que, muitas vezes, se omita os conhecimentos e que prevaleça o silêncio. Muita gente acaba por ser negligente por omissão destes delitos e, indirectamente, acabam por, aos olhos dos abusadores, lhes incitar e legitimar o abuso continuado.

Saindo do âmbito da psicologia, o filme tem essa capacidade de nos fazer olhar para trás, friamente, como quem olha para uma história longínqua, só que não! Afinal, aquilo que parecia um fenómeno isolado, casuístico, datado, acabara por se tornar um problema global, com padrões típicos e análogos na maioria dos países de influência católica.

Para lá das coisas más, dos acontecimentos trágicos, criminosos, o caso spotlight serve como referência para valorizarmos o papel de uma comunicação social livre e destemida, que é um elemento constitutivo de uma qualquer sociedade democrática sadia. O seu valor é incomensurável!

Vejam o filme porque, apesar de não ser uma obra prima da 7.ª arte, faz-nos reflectir sobre nosso mundo e faz-nos também acreditar no poder das sociedades se confrontarem com o lado negro da sua história e, dessa forma, se libertarem e regenerarem rumo a um futuro bem menos sombrio! Deitar a sociedade no divã também é uma forma de superar o trauma!

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