Livro da Semana: Ifigénia na Táurida, de J. W. von Goethe, 1787

Iphigenie auf Tauris, Johann W. von Goethe, 1787

Ifigénia na Táurida é uma tragédia de Goethe, escrita em cinco actos, que reflecte uma narrativa mítica e poética da antiga Grécia. A história começa a partir da obra de Eurípides Ifigénia em Áulide, quando Ifigénia, filha de Agamémnon e de Clitemnestra, irmã de Electra e de Orestes, é sacrificada por seu pai como oferenda aos caprichos da deusa Diana, um pagamento – do ut des – de um sucesso militar. Mas Ifigénia não morre! Por um ato da vontade divina, a jovem helénica sobrevive, sendo levada numa nuvem para Táurida, uma floresta obscura longe da sua pátria amada. Aí é feita sacerdotisa da deusa Diana e sob as ordens do rei Arcas, simultaneamente seu protector e seu carrasco, celebra rituais de sacrifício. A floresta inquieta-a a ponto de exclamar: “a este lugar não se habitua o meu espírito, apesar de há tantos anos aqui me manter a Força superior a que obedeço (…) a liberdade que este santuário concede é presságio de morte, como quando o moribundo vislumbra pela última vez a luz da vida.”

O destino vai tecendo o manto da sua vida até que, por artimanha desses deuses políades, Orestes, seu irmão, é capturado por Arcas e levado prisioneiro para Táurida. Aí descobrem-se os irmãos e a tragédia caminha a cumprir o seu fado. Arcas exige que a sua amada Ifigénia sacrifique Orestes mas ela lembrar-lhe que “o sangue não traz benefício nem descanso; e a imagem do assassinado volta para assombrar durante longas horas quem com triste relutância o assassinou”. Poderá a vontade de um rei sobrepor-se à vontade dos deuses? Na verdade, há algo para lá da vontade, a necessidade. A necessidade é essa “mão de ferro” onde qualquer gesto seu é a lei suprema. Nem os próprios deuses deixam de estar submetidos a ela. A este propósito há um antigo provérbio grego que nos diz: “ἀναγηη οὐδὲ Θεοὶ μαχοντα”, e significa literalmente que “Nem os deuses lutam contra a necessidade”, ou seja, o que tiver que ser, será!

Esta obra prima do poeta alemão Goethe, traduzida magistralmente para português por Frederico Lourenço, mostra-nos, uma vez mais, essa propriedade grandiosa das heroínas gregas: tal como Antígona, também Ifigénia clama por uma lei que transcende a lei humana, uma lei que está além das leis divinas, uma lei eterna da justiça que reside ali onde o coração vive e fala e é senhor dessas verdades supremas, e onde para lá da razão, num profundo sentimento lhe diz que “toda a vida humana é sagrada”.

Nesta passagem efémera pela luz divina (αιγλα), numa comunhão com o espírito absoluto, rumo, quem sabe, ao longo sono dos justos, Ifigénia ensina-nos, acima de tudo, que “não é preciso reflectir para fazer o bem.”

Hélder Filipe Azevedo
Vale S. Martinho, dia 13, do mês de Março, do ano de 2016.

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