Filme da Semana: A Selva

filme-a-selvaA SELVA, de Leonel Vieira, 2002. Com Diogo Morgado, Chico Diaz, Claudio Marzo, Maitê Proença, Gracindo Junior. Co-produção Portugal/Brasil/Espanha.

A Selva, de Leonel Vieira, é um dos filmes portugueses mais fascinantes. Baseado na obra homónima de Ferreira de Castro (Biografia do autor (site: Escritores a norte)) (1898-1974), importante precursor daquilo a que poderemos considerar como o neo-realismo português, o filme traça uma memória dos tempos de juventude, de exílio e de solidão, onde a miséria material do mundo e das suas circunstâncias se conjuga com afectos e doações inesperadas. Orçado em mais de quatro milhões de euros e rodado em dez semanas na região de Manaus, capital do Estado do Amazonas, no Brasil, é um retrato autobiográfico dessa experiência inesquecível do escritor português, uma experiência radical, no meio de uma selva tão deslumbrante quanto inóspita. A história – um romance autobiográfico – começa com a fuga do jovem monárquico português Alberto para o Brasil, no início do século XX, numa fuga aos fervorosos ímpetos revolucionários republicanos que assolavam Lisboa no início do século. Habituado a uma vida boémia e opulenta, o jovem, agora em desgraça, ruma a um mundo novo, não na condição dos seus antepassados, mas relegado para a condição dos infortunados, daqueles de perderam o mundo e precisavam recomeçar. Espera-o um lugar transformado pela ganância dos homens e pelas condições naturais brutais e alucinantes, ainda que se aparente um tempo suspenso e uma visão idílica, como um sonho. Ao contrário de Hesíodo, que considerava o trabalho como o elemento que dignificava a existência do Homem e clamava contra o ocioso, que apenas se consumia na inveja daquele que consegue frutos do seu labor, na selva, um pretenso estádio primitivo, o trabalho é a condição do explorado, é a objectivação da indignidade, é o momento em que a existência caminha por entre punhais de realidade, consumida sem complacência num jogo de vida e de morte. Aqui não há lugar para idealismos. E o romantismo assume a sua forma crua e áspera.

Esta co-produção possui, a meu ver, três características que a valorizam: primeiro, o elemento imagético. De facto, a visão contempla um verde paradisíaco, onírico e podemos experienciar essa chegada outrora a um mundo inviolado. Em segundo lugar, a linguagem verbal do filme procura reproduzir o mundus selvático e opressivo da exploração do homem pelo homem (homo homini lupus est), um mundo hobbesiano, pessimista no seu estado de natureza, centrado na experiência de quem viveu em lados opostos e, como tal, com capacidade objectiva de entender a realidade. Finalmente, o filme procura fidelizar-se à obra literária e, dessa forma, reconduzir ao pensamento do espectador à experiência radical do autor. Nesse sentido, podemos entender Ferreira de Castro e a sua demanda no seringal Paraíso , nas margens do rio Madeira, em plena Selva Amazónica, travando conhecimento, amizade e empatia com os homens mais simples e desvalidos do mundo, um mundo histórico ainda profundamente servil.

O filme termina com a palavra, a escritura testemunhal directa do autor, daquilo que se viveu, que se perdeu mas que ficou guardado na memória: “…sobrepõe-se, sempre no meu espírito, uma causa mais forte, uma razão maior, a humanidade (…) esqueço-me de mim, mas não me esqueço da selva”!

Também para nós é difícil  esquecer-mo-nos da Selva.

Nota 9/10.

 

 

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