Filme da Semana: Encontro com Homens Notáveis

 

Encuentros_con_hombres_notables-167084942-largeEncontro com Homens Notáveis é um filme estranho e extraordinário. É uma viagem mítica e mística pelo berço da civilização, essa terra onde durante muito tempo os homens conservavam tradições religiosas e espirituais antigas, ocultas, e viviam numa comunhão interior com o Universo, com o Uno, com Deus ou com o seu Eu mais profundo.

Não é um filme para qualquer pessoa. É preciso uma predisposição mental para compreender e poder aceder a essa outra dimensão espaço-temporal, num exercício de ilusão e sonho, mas fora da fantasia.

Adaptado ao cinema por Peter Brook – a partir de um escrito homónimo – em 1979, fala-nos das aventuras de juventude de Gueorgui Gurdjieff, um homem que nos primórdios do século XX (1922) chegara à Europa a partir do Oriente Médio e do Egipto e contara as suas extraordinárias experiências vividas num mundo perdido e desconectado com a modernidade europeia. É traçada uma viagem – esse fermenta cognitionis – pelo Afeganistão e pelo Egipto à procura do verdadeiro conhecimento. O viajante segue ao encontro de homens-deuses enigmáticos, cheios de alma e de mistério. Os homens notáveis são gigantes, filhos de deuses, que vagueiam ao som das esferas celestes, indefinidamente, para cumprir um destino épico, superior. Gurdjieff procura aceder aos mistérios da existência humana por meio de encontros e de angústias, sem contemplações. Para ele, não há paz na ignorância, a alma não se apazigua no desconhecimento. Viver, para esta gente, é partir, é desenraizar-se e buscar o sentido das inquietações. E é não ter medo da verdade. Nós acedemos a essa forma de vida pelos escritos testamentais, como o Eclesiastes, por exemplo, quando declara a vaidade do espírito ou que o conhecimento atrai a dor.

“Quem aumenta o seu saber, aumenta o seu sofrimento”.

(Ecl. 1, 18)

Há, na experiência de Gurdjieff, um choque na abordagem a esses gémeos incompatíveis, o Oriente e o Ocidente. Eu próprio já tive oportunidade de sentir o desfasamento histórico e ôntico entre essas duas realidades. O Oriente é uma terra fértil, onde o ar hipnotiza e nos faz viver num limbo de incertezas. Nesse deslumbre, não sabemos se sonhamos ou se estamos num estado de vigília, onde se desenrola à nossa vista o mundo. Quando assisti, em Konya, na terra onde morreu o profeta sufi Mevlana Jalal ad-Din Muhammad Rumi, à Sema, essa cerimónia alucinante dos Dervixes, pude sentir o bafo desse espírito perdido no ocidente, como se contemplasse os olhos do Criador. O filme transporta-nos para experiências inesquecíveis.

Filmado nas montanhas e nos vales proibidos do Afeganistão, a cor e a imagem tornam a realidade visual e atmosférica demasiado deslumbrante.

No final dos 90 minutos de puro deleite, lembrei-me de JOÃO, Capítulo 1, Versículo 5:

“The light shines in the darkness

and the darkness has not overcome it.”

O filme chegou a estar nomeado para o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim, em 1979. Não está distribuído em Portugal mas a versão espanhola possui legendas em português.

Nota 10/10.

Hélder Filipe Azevedo. Vale S. Martinho, dia 05, do mês de Abril, do ano de 2016.

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