Memórias do Oriente: A Antiga Constantinopla

 Antiga Bizâncio para os gregos, Constantinopla para os romanos e otomanos, Czargrado para os eslavos, hoje Istambul e para sempre a Rainha das Cidades. À chegada, abençoa-nos o Mármara, como quem baptiza, e faz-nos caminhar até ao Bósforo, beber do Corno de Ouro e serpentear livres as sete colinas até  vislumbrar o encontro desses loucos gémeos desavindos: o Oriente e o Ocidente. O fresco ar da manhã permite-nos apaziguar dentro da inquieta multidão. E depois, ao início da tarde, comer um manjar divino, vegetariano, à beira-mar, onde a brisa  alimenta o espírito enquanto o corpo se restabelece e sentimos, nessa hora, a nostalgia de tempos passados, perdidos algures no absoluto. Há um perfume doce e clássico que inebria. Viajamos dentro da viagem, desconhecendo se nos comanda o sonho ou o desejo.

 
E depois, mais além, deparamo-nos com as múltiplas e grandiosas mesquitas e algumas igrejas que ferem o ingénuo olhar de quem contempla a história da humanidade. Lá no alto,  os minaretes, onde os muezims apontam aos céus em êxtase, cantando o seu adhanm, erguem-se dominantes e imponentes. Tudo aqui é espírito e desenhado às mãos desse perfeito criador, o tempo. Talvez seja a cidade do descanso divino, onde um Deus pantocrator extasiado contemplou a sua criação. É que o azul celeste e o dourado natural não são cores deste mundo. O pintor, o artista, com certeza registou aqui nesta terra esse génio criativo, fascinante, capaz de, em espanto, suspender a respiração da terra. Há uma inveja maldita que se apodera de quem a vê e, impotente, não pode viver aconchegado eternamente no seu seio. A cidade enlouquece!

 
Quando entramos nos seus templos, nos sarcófagos de memórias universais, os vestígios dos tempos passados atormentam quem no presente a habita. Entre guerras e glórias, fixa-se nas ruas e nas colinas os registos dos impérios perdidos e de homens vencidos. Aqui há quem se lembre de Heitor e dos que lutaram e perderam, ou dos que ousaram viver em tamanho idílio sem temor. Constantino, Justiniano, Teodora, Saladino e tantos e tantos outros.

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Há aqui, também, um movimento permanente, idas e voltas de quem vive, há o quotidiano alucinante e há luz. As ruas são bazares exóticos e luxuosos, o comércio faz-se à voz do regateio, há gente que labuta arduamente, sem sossego ou sem destino, e há gente que pratica o doce e idílico ócio bizantino. E depois reza-se muito, inala-se o incenso com que se adula o criador e é-nos conduzido o olhar a Meca. Esta gente olha ainda mais para o oriente, como se se chamasse a luz que ilumina os seus dias, ou a água que fertiliza os solos, ou um sopro de vida que lhes anima o corpo, dia após dia. Existe-se num transe místico, num limbo onírico.

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 As cúpulas das mesquitas representam o firmamento e as esferas da criação. É um universo teocêntrico e geoestático. Não sentimos a pulsão de quem labora ou o respirar do universo, nem tão pouco o caminhar da humanidade rumo a um qualquer progresso  técnico e científico. O tempo parou. O sangue aquieta-se perante uma estrelada e luminosa abóbora arquitectónica. E depois surgem as contradições e antíteses, que de forma magistral impulsionam a criatividade, a pluralidade, a diferença e tudo num sincronismo vital. É um lugar de encaixe, de posições e disposições caóticas que, por milagre, se unificam numa lógica de perenidade. Tudo se transforma para ficar na mesma. Há um provérbio árabe que diz que “não visitar pode ser uma obra de misericórdia”, mas aqui, no meio do outrora império da Porta Sublime, os provérbios e os ditados são palavras venenosas que pretendem ocultar tesouros nunca vistos.

Cativo de um amor imenso, Istambul foi uma dádiva divina, uma oferta de ousadia. Soube, em silêncio, devorar a imensidão de um mundo tão singelo, mas fiquei escravo de uma cidade imortal. Pudéramos nós cair num idealismo de encanto, e que Nietzsche tivesse razão, pois saberíamos que viveríamos uma e outra e outra vez, num eterno retorno, e que ela estaria aí, imponente, sempre disposta para nós.

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® Hélder Filipe Azevedo, 2016.

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