Filme: Filho de Saul, 2015.

 

 

O FILHO DE SAUL, de László Nemes. 2015.

Há um decreto de Göring que protege as rãs.

David Rousset

hijo-saulSaul é um nome comum no mundo judaico. É o nome de um rei, o primeiro que uniu os judeus enquanto entidade étnica e espiritual. Então, é simbólico que o herói do filme seja uma figura de nome Saul e que deambule entre campos negros, onde ecoam vozes trágicas, onde se respira o putrefacto ar da loucura e se transpira um sonho escatológico, como um homem lançado no inferno e que procura a porta de saída. Não existe saída!

A vida aqui é um limbo de morte, imerge-se num pesadelo psicadélico, vagueia-se entre o holocausto de horror diabólico e a preservação de uma certa dignidade teológico-existencial, por isso a necessidade de sepultar um criança exterminada.

Saul é um Sonderkommando. O filme começa precisamente com a definição desta palavra germânica. Na linguagem concentracionária, é um termo utilizado para designar um grupo de prisioneiros de estatuto especial, também conhecidos como “Portadores de Segredos” (Geheimnisträger). Os membros de um Sonderkommando são separados do resto do campo e trabalham apenas alguns meses antes de serem executados. O filme segue a última jornada de vida deste Saul Ausländer, um judeu húngaro que pertence ao sonderkommando e, portanto, estava encarregado da limpeza das câmaras de gás logo após cada sessão de extermínio. No decurso da sua trágica e inefável tarefa – locus horrores et vitae solitudinis – depara-se com uma criança sobreviva ao gaseamento, num estado de asfixia agonizante. A mente de Saul quebra e este passa a viver em delírio, pensando que esta criança seria o seu filho amado. Procura então um rabino que não dite apenas o Kaddish, mas faça toda a cerimónia fúnebre de rito judaico. Nesta procura alucinante, também nós somos confrontados com a representação daquilo que terá sido essa noite escura da alma em que Deus se esquecera do seu próprio povo.

Não é simples nem fácil representar o que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal, o traço que os alemães ousaram ultrapassar, sem perdão, e talvez Adorno tenha tido razão ao defender que escrever poesia depois de Auschwitz seria bárbaro, mas esquecem-nos que também no mal reside muita beleza (Elisabeth Roudinesco dizia que “quando maior é a beleza mais profunda é a mancha), fascínio e muito daquilo que constitui a natureza humana (seja o desejo mimético, seja o poder de dominação, seja a inveja, a comparação, a sobrevivência, seja outra coisa qualquer).

O filme, de visionamento obrigatório, foi galardoado com mais de 45 prémios, dentre os quais o Grande Prémio do Juri e o Prémio da Crítica Internacional do Festival de Cannes, o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro e o Óscar da academia também na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Não existem palavras capazes de definir a importância valiosa desta película.

Nota 10/10

© Hélder Filipe Azevedo, 2016

 

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