Filme: O Abraço da Serpente (2015).

IMG_0051O abraço da Serpente é um filme colombiano, do realizador Ciro Guerra, nomeado aos Óscares da Academia em 2016, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e que aborda um idealismo narrativo, um olhar temporal sobre um pretenso cosmos indígena, que, no seu contacto com a civilização ocidental, havia perdido todo o seu mistério e esplendor.

O filme começa com uma breve citação de Theodor von Martius (cujo nome verdadeiro é Theodor Koch-Grünberg), um etnógrafo que viajara na Amazónia pelo início do século XX, que escreveu:

Não me é possível saber se a infinita selva iniciou em mim o processo que levou tantos outros à total e irremediável loucura.

Se assim for, só me resta desculpar-me e pedir a tua compreensão, já que o desdobramento que presenciei durante essas horas encantadas foi tal, que me parece impossível descrevê-lo numa linguagem que consiga transmitir aos outros a sua beleza e o seu esplendor; só sei que quando regressei, vinha outro homem“.

Quem, como eu, aprecia o escritor português Ferreira de Castro, encontrará aqui uma certa similitude existencial, uma experiência radical de um homem imergido na imensidão da selva amazónica, sendo transformado por uma força imanente, impossível de dominar e resistir. Ao longo do filme desenrola-se uma história ocidental de fascínio e exploração pelo mundo selvagem, por uma terra inóspita mas deslumbrante, intacta, uma espécie de Estado de Natureza filosófico, que, particularmente, exerceu um grande poder magnético em muitos intelectuais alemães entre os séculos XVIII e XX, como, por exemplo, o explorador, geógrafo e intelectual Alexander von Humboldt. Quem conhece o trabalho de Humboldt ficará maravilhado com o filme, que parece uma reprodução das suas viagens pela América espanhola entre 1799 e 1804.

Ao longo do filme, no plano principal, traça-se a viagem do jovem xamã Karamakate e o explorador von Martius em busca de conhecimento do mundo indígena e da Yakruna, uma planta sagrada, escassa, desconhecida, com propriedades altamente curativas. Durante a viagem ficamos a conhecer pormenores fascinantes acerca da linguagem e da mundivisão desses povos selvagens, protegidos da cultura ocidental, como diria Jacques Derrida, uma cultura handrofalogocentrista. Deparamo-nos com conceitos como o de chullachaqui, que significa “um ser igual a ti, mas vazio, oco, que vagueia pelo mundo” e que é muito semelhante ao conceito escatológico grego Ἐιδολον, que derivou depois no português ídolo.

Esteticamente o filme possui apenas um pormenor negativo, a meu ver, que são os excessivos efeitos especiais que acabam por desvirtuar o sentido narrativo da própria história.

 Para gáudio do espectador, o filme termina em forma de reflexão e tristeza: “foi inspirado nos diários de viagem de Theodor Koch Grünberg (1872-1924) e Richard Evans Schultes (1915-2001). Os diários são o único registo conhecido de muitas culturas amazónicas. O filme é dedicado à memória de povos cuja canção jamais conheceremos.”

Nota: 9,5/10

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