Os Cavalos de Deus (o Filme e o Livro)

A expressão “Cavalos de Deus” refere-se a uma passagem do Alcorão que apela aos muçulmanos da seguinte forma: “voem, Cavalos de Deus, e as portas do paraíso abrir-se-ão para vocês“. É um apelo aos los_caballos_de_dios-cartel-6259mártires, um chamamento poético para uma missão de glória e de reconhecimento, mas que encerra em si um veneno letal, comungado aliás por todas as religiões monoteístas: a ideia filosófica de que existe um Deus, uno, por um lado, e que existe um paraíso, por outro lado. Isto é, aquela ideia platónica de que este mundo é apenas uma cópia imperfeita de uma realidade perfeita, e que essa realidade é acessível de alguma forma. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islão, as três religiões abraâmicas, souberam aproveitar dogmaticamente, e com sucesso, esses devaneios próprios de uma época especulativa, terminada há muito tempo já. Não nos podemos esquecer que Aristóteles, por exemplo, foi reintroduzido na Europa pelos árabes, nos séculos XI e XII, 1400 anos após a vida do filósofo – com um grande contributo dos comentários de Averróis – e que em Al-Andaluz (actual Península Ibérica) conheciam bem a metafísica tanto platónica como aristotélica, como também fragmentos dos filósofos pré-socráticos.

Este filme de 2012, dirigido por Nabil Ayouch, com Abdelhakim Rachid, Abdelilah Rachid, Hamza Souideq, et allia, é a adaptação da obra homónima de Mahi Binebine (no original, Les étoiles de Sidi Moumen), publicada em espanhol no ano passado, e descreve o método de conversão e radicalização dos jovens marroquinos, demasiado vulneráveis, e que sucumbiram à retórica dos  imames jihadistas que povoavam Sidi Moumen. A história culminaria nos atentados a Casablanca, em maio de 2003.caballos-de-dios-2

O livro e o filme mostram o ciclo da tragédia: miséria absurda, desconsideração social, discriminação, desinformação e analfabetismo, violência e punição, e, no fim do ciclo, manipulação e morte. Eram jovens para quem este era o pior dos mundos possíveis, citando A. Schopenhauer. Pior do que um mundo de dor e sofrimento, era viverem num mundo sem esperança, sem oportunidades, onde o radicalismo, a completa alienação, era a única porta que se abria. Foram jovens que desligaram a sua humanidade. Nesse momento, já não tinham empatia, piedade, pena sequer, pelos seus semelhantes, eram totalmente fantoches instrumentalizados, nada mais!

É a primeira vez, que me lembre, que alugo um filme que já tinha visto. Um filme magnífico e um livro soberbo, que ajudam a compreender a actual problemática do radicalismo islâmico e talvez encontrar nas suas causas uma forma de o combater.

Nota 10/10

© Hélder Filipe Azevedo, 2016.

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