Outono na serra

Cor e frutos de Outono

Os alemães, um pouco como todos os povos ocidentais, identificam o Outono (der Herbst) com o pôr do sol (der Untergang). É como se nos impusessem um recolhimento obrigatório para uma espécie de penumbra existencial. Eu adoro o Outono. Faz-me lembrar a dureza e a beleza da palavra, da solitude, dos dias castanhos e frios, onde um vento furioso manifesta a sua vida e o seu sentido. Há algo de finitude no Outono e de saudoso também. A esse propósito lembro-me todos os anos, por esta altura, de dois registos impressionantes. O primeiro registo trata-se de uma passagem da obra O Tempo esse grande escultor, de Marguerite Yourcenar (Difel, 2001, p. 65) que descreve uma tragédia japonesa:

– durante a 2.ª Guerra Mundial, os jovens kamikaze, membros da mais alta nobreza nipónica, imbuídos de um espírito de missão, honra e servidão, despedem-se poeticamente da vida, embarcando na sua viagem sem retorno. Um desses jovens, ao partir para a morte, registou no avião o seu último desejo poético:

“Pudéssemos ao menos cair,

Como flores de cerejeira,

Tão puras e luminosas…”

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Tempo de limões

A segunda lembrança outonal diz respeito à  saudade e à melancolia dos judeus sefarditas, que outrora foram obrigados a abandonar a sua pátria (Portugal e Espanha) e a deambular sem destino pelo mundo. No livro Nidah, no capítulo 30, o poeta lança um lamento profundamente sentido:

“Um homem adormece aqui e tem os seus sonhos em Ispânia”.

Há algo de doloroso no Outono mas também de um encantamento indescritível.

Para terminar, gostaria de citar Aldo Leopold, um dos mais prestigiados conservacionistas e ecologistas do século XX. Quando publicou a sua obra Pensar Como Uma Montanha (no original, A Sand County Almanac), uma belíssima tradução portuguesa pela Edições Sempre-Em-Pé, referindo-se ao mês de Outubro, o mês outonal por excelência, escreveu o seguinte:

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“Os larícios mudam do verde ao amarelo quando as primeiras geadas trazem lá do norte a galinhola, o verdelhão raposa (passerella iliaca) e os junco de olhos negros (junco hymelis). Uma tropa de piscos esbulham as últimas bagas brancas das matas de cornisos, deixando os caules vazios como uma neblina rósea contra a colina. Os amieiros na borda do rio perderam as folhas, expondo aqui e ali um tufo de azevinhos. As silva brilham da cor do fogo, iluminando-nos os passos em direção aos galos silvestres.”

Este é o meu elogio ao Outono aqui na serra.

© Hélder Filipe Azevedo, 27.IX.2016

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