LIVRO: Vinte Dias na Rússia

consiglieri_Pedrozo_20dias_RussiaZófimo Consiglieri Pedrozo, um geógrafo, jornalista, escritor e político português, em agosto de 1896, aventurou-se 20 dias na ainda Rússia Imperial, esse país feudal tão imenso e desconhecido, já no estertor da sua longa existência. Atravessou todo um continente, qual rota mítica, para chegar a São Petersburgo (a capital do império), e a partir daí encetar uma travessia que o levaria igualmente a Tver, Koltsovo e Moscovo.

Ao longo dessa jornada gloriosa, deparou-se com uma terra inóspita e, ao mesmo tempo, fértil, com gente humilde mas orgulhosa, com monumentos estranhos mas ímpares e deslumbrantes, num misto de sonho e de vigília. Quis o autor conhecer a pátria desses grandes vultos da literatura mundial, como Turgeniev, Tolstoi, Dostoievski, Pushkin, e muitos outros que, com excelso talento, se dignaram mergulhar na Rússia profunda, até às entranhas, e exaltar esse espírito contraditório das estepes. Consiglieri Pedrozo chegou inclusive a aprender russo, nos meses que antecederam a viagem, para poder ler e melhor entender um povo tão enigmático e uma cultura tão rica e singular. Filosoficamente, não foi um processo de assimilação mas de puro conhecimento e fruição.

Este é um livro um pouco especial para mim, porque, precisamente, me lembrou dos mesmos passos com que visitei esse grande país eslavo. É evidente que se trata de uma outra Rússia, transmutada por novas guerras, revoluções e experiências políticas e sociais difíceis, mas o seu espírito continua aí, entre nós, com semelhante vivacidade e procura a mesma ânsia de existência que qualquer outra nação, seja ela a portuguesa, a alemã ou esse grande dragão asiático, a China (com quem, inclusive, a Rússia faz fronteira).

Com uma descrição pormenorizada das ruas, dos rios, das catedrais, dos jardins e das pessoas, o autor quis iluminar esse desconhecido, retirar um véu opaco, e partilhar as memórias desse lugar nos antípodas do nosso continente. A Rússia, qual Janus, olha permanentemente para ocidente e para oriente. É um amante indeciso, que não consegue, definitivamente, escolher entre dois amores absolutos.

É uma experiência totalmente recomendável (a viagem e a leitura deste pequeno mas delicioso livro).

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

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