FILME: FITZCARRALDO (1982)

FITZCARRALDO. Werner Herzog. Alemanha, Peru. 1982.

Fitzcarraldo é um dos grandes filmes da história do cinema. Realizado por Werner Herzog, numa produção teuto-peruana de 1982, conta com as magníficas interpretações, entre outros, de Klaus Kinski e Claudia Cardinale. A trama segue os sonhos de um europeu caído, qual Adão depois de pecar, num mundo longínquo, na Amazónia, onde, segundo a sabedoria indígena, a criação divina foi  incompleta. Tenta enriquecer, primeiro com os ferrocarris, depois com a produção de gelo, depois ainda com a produção de borracha. Não consegue. Salva-o o amor de uma mulher de honra duvidosa. Num ambiente tão inóspito, tão adverso, onde o poder se impõe pela força bruta e pela riqueza dos grandes industriais, autênticos senhores feudais, este homem, Brian Fitzgerald, mais lívido que uma leitosa manhã invernal, pretende construir um teatro onde, num misto de sonho e de delírio, possa apresentar – ao porco e ao pobre – o admirável tenor italiano Enrico Caruso. 

O filme, uma espécie de parábola à própria vida humana, pode ser concebido como uma “conquista do inútil”, como escreveu posteriormente Herzog. É a ideia de que a arte comanda o mundo onírico e que materializá-la para lá da razão é uma empreitada de desgraça. A Amazónia, esse paraíso objetivado, como acreditaram os primeiros descobridores, não passa, ao ser humano, de um inferno dantesco, cheio de mistério e terror. A extrema beleza verde, tão inebriante como o ópio mais adocicado, é apenas uma armadilha para os insensatos. É como uma esmeralda disponível que deslumbra o sonhador, mas que se transforma em veneno no momento em que se toca. Ou ainda uma ninfa que se esvanece quando se vê, como no mito de Orfeu e Eurídice. Nesta epopeia do mundo moderno, acompanha-o a sua relíquia mais preciosa: o gramofone, tocando as líricas mais imponentes e magestosas nesse instante do tempo em que o homem embate na natureza, forçando a viagem por esse amazonas acima.

O filme foi indicado aos prémios de Cannes, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Realizador, que venceu; aos prémios BAFTA e aos Globos de Ouro. Werner Herzog venceu em San Sabastian e nos Prémios de Cinema Alemão, precisamente na categoria de Melhor Realizador.

Nota: Acaba de ser lançado, pela Tinta da China, o diário deste longo e intempestivo labor de Herzog. Um livro de notas da selva que complementa, de forma sublime, este belo e imortal filme.

Hélder Filipe Azevedo, 2017


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