Direito de Asilo: Uma história Bizantina

JOÃO CRISÓSTOMO E A HOMILIA EM FAVOR DE EUTRÓPIO

John_Chrysostom_and_Aelia_Eudoxia
1. A biografia de Eutrópio é dolorosa. Nasceu nas margens do Eufrates, algures no século IV. Pouco tempo depois de nascer, os seus pais castraram-no, porque um jovem castrado era mais caro que um rapaz normal e queriam usufruir o máximo proveito dele.

2. Eutrópio foi comprado por um soldado, depois por um general e depois ainda por um cônsul, que o ofereceu à sua filha como presente de casamento.

3. No entanto, Eutrópio envelheceu. A sua dona não podia mais empregá-lo…mas, já que ninguém queria comprar Eutrópio, devido à sua idade, foi-lhe dada a liberdade. Afinal, um escravo velho era uma boca inútil.

4. Eutrópio entrou facilmente ao serviço de um general da corte chamado Abundantius. O imperador Teodósio teve a ocasião de falar com o eunuco quando este se encontrava ao serviço do general. Ficou admirado da inteligência, do tacto e da habilidade de Eutrópio. Cada vez que necessitava de um conselho prudente, Teodósio pedia-o a Eutrópio. Em pouco tempo, este converteu-se em conselheiro privado do grande imperador romano. À morte de Teodósio, Eutrópio passou a conselheiro de Arcádio e acompanhou-o a Constantinopla. Depois do assassinato de Rufino, tutor do jovem imperador, Eutrópio converteu-se no único conselheiro de Arcádio.

5. Eutrópio fez com que Arcádio contraísse casamento com Eudóxia, e, já que o imperador se encontrava permanentemente sonolento, o império foi na prática governado por Eutrópio. O antigo escravo chegou então a governador-geral do Império Romano do Oriente.

6. O eunuco era cristão, um bom cristão, inclusive. Não obstante, desde que fora nomeado primeiro-ministro, a sua vida era um inferno. O mundo não podia perdoar-lhe que tivesse sido escravo e tivesse chegado tão alto. Haviam-se passado 400 anos desde o nascimento de Jesus Cristo e, no entanto, os homens não se achavam convencidos todavia de que todos eram iguais.

7. Eutrópio sabia suportar as humilhações. Um antigo escravo está acostumado a ser humilhado e ofendido continuamente. Mas os homens perdem, às vezes, a medida. Quando já não conseguem mais, os homens não suportam voluntariamente as humilhações. É próprio da sua natureza. E, de vez em quando, perdem a paciência. Também Eutrópio perdeu a paciência. Um dia condenou um dos seus inimigos, o general Tomasius. Logo, as condenações continuaram, sem interrupção. O general Tomasius era o chefe de um complot contra Eutrópio, e os demais conspiradores refugiaram-se na igreja. As igrejas eram lugares sagrados. Ninguém podia ser preso se tivesse buscado refugio numa delas. Quando viu que os seus inimigos se escapavam, Eutrópio promulgou uma lei, a 4 de Setembro do ano de 397, pela qual proibia as igrejas de dar asilo aos homens perseguidos pela justiça. Esta lei alarmou todo o império, desencadeando o ódio contra o agora rico e poderoso eunuco.

8. Eutrópio vestiu o uniforme de general, o uniforme de magistrado e o de cônsul também. Começou a reunir ouro e toda a classe de riquezas. Era tirânico e cruel. Não sentia piedade por ninguém. Eutrópio era uma alma perdida! Crisóstomo, o bispo da então Constantinopla – antiga Bizâncio e actual Istambul – não podia tolerar que Eutrópio atacasse a Igreja abolindo o direito de asilo para aqueles que iam pedir protecção junto ao altar. Isto, sobretudo, João Crisóstomo não podia tolerar. Ninguém tem o direito de atacar a Igreja, nem sequer os tiranos, argumentava. Crisóstomo era bispo e tinha o dever de defender a Igreja.

9. O direito de asilo da Igreja é um dos mais antigos que existem na terra. Antes de haver leis, os homens, quando se encontravam em perigo, buscavam refúgio nos braços dos deuses. Os templos, essas moradas dos deuses, eram invioláveis. No curso da história, o exército e a polícia recorreram a diversos estratagemas com o objectivo de matar aqueles que se refugiavam na casa dos deuses. Ás vezes abriam buracos no tecto e por esses buracos disparavam o arco até ao interior. Pensavam que dessa maneira não violavam o templo sagrado. Amuralhavam também as portas e aqueles que se encontravam dentro morriam de fome e de sede. Os romanos montavam uma guarda nas portas dos templos e impediam as pessoas de entrar.

10. Outra lei obrigava os sacerdotes e os monges a pagar as dívidas de quem se refugiava nas igrejas, no caso dos asilados perseguidos pelo fisco. Dois éditos de Eutrópio proibiam as igrejas de acolher aqueles que se fizeram culpados do crime de lesa majestade. É dizer, aqueles que conspiravam contra ele.

11. João Crisóstomo começou, portanto, um combate contra Eutrópio, e tinha um aliado apaixonado e poderoso: a imperatriz Eudóxia. Esta não suportava que Eutrópio mandasse nela como se mandava numa criada.

13. No ano de 399 chegou a Constantinopla um chefe godo chamado Trivigildo. Este pediu uma audiência a Eutrópio. O eunuco foi protelando a audiência do chefe godo e ousou fazê-lo esperar na antessala durante largos dias, com o objectivo de o humilhar. Eutrópio recusou-lhe todos os pedidos e, além disso, humilhou-o de modo injurioso. Trivigildo ofendeu-se de tal modo que quase chorou de raiva.

14. Toda a aristocracia era ofendida pelo eunuco. E todo o exército. E todo o império. Agora, neste momento da sua vida, eram vários os inimigos que pretendiam matar Eutrópio.

15. Os godos acabaram por declarar guerra ao Império Romano do Oriente e avançaram até Constantinopla. Trivigildo queria a cabeça de Eutrópio, que o havia humilhado. Nada mais…além da cabeça do ministro. Trivigildo ameaçou destruir Constantinopla, caso não lhe fosse satisfeito o desejo de receber a cabeça de Eutrópio.

16. Neste momento, o Imperador Arcádio abriu os olhos e perguntou a Eutrópio se devia cortar-lhe a cabeça e enviá-la aos godos. Eutrópio, claro está, não podia decidir-se nesta alternativa: deixar-se cortar a cabeça ou sacrificar Constantinopla. Pelo seu lado, a imperatriz Eudóxia olhou essa cabeça, que não queria ver mais no palácio, e disse abertamente ao eunuco que se deixasse cortar a cabeça e que fosse enviada aos godos com o objectivo de salvar Constantinopla. Era, por outro lado, uma cabeça feia, uma cabeça odiada, terrivelmente feia, disse. Eutrópio tomou a imperatriz pela mão, com violência e disse: “Têm cuidado, Eudóxia, a mão que vos fez chegar a este palácio é ainda bastante forte para lançar-vos longe”.

17. O imperador compreendeu que Eudóxia tinha sido ofendida e que esta pedia agora, também, a cabeça de Eutrópio. Não só os godos mas também a imperatriz queria essa cabeça. O imperador não podia suportar os gritos e as lágrimas da imperatriz e assim concedeu a Eudóxia a cabeça de Eutrópio. Deu-a à imperatriz. Assim, deu ordem de confisco a todos os uniformes, títulos e bens de Eutrópio.

18. Mas Eutrópio era um homem hábil. Sob disfarce, conseguiu sair do palácio por uma escada de serviço. Eudóxia, que desejava a cabeça de Eutrópio com mais paixão que os godos, enviou a polícia, os guardas e os criados atrás do eunuco para que o trouxessem acorrentado. Mas Eutrópio encontrava-se já na Catedral de Santa Sofia de Constantinopla, ajoelhado ao altar e pedindo protecção ao bispo João Crisóstomo. Este recordou-lhe que, por dois decretos, o eunuco havia anulado os direitos de asilo das igrejas. Os que eram perseguidos não podiam já refugiar-se nas igrejas, por causa das leis que ele mesmo, Eutrópio, havia ditado.

19. Eutrópio encontrava-se desesperado. Com essas leis, ele mesmo tinha fechado o seu único caminho de salvação. Crisóstomo, como grande teólogo que era, respeitava em primeiro lugar as leis eternas. Animou pois a Eutrópio, do mesmo modo que se deve animar a um homem em desgraça. Crisóstomo prometeu-lhe que a igreja o protegeria, ainda que Eutrópio houvesse proibido a igreja de proteger aqueles que se encontravam em aflição. O bispo disse ao eunuco que a Igreja alcança a sua maior glória quando os seus perseguidores iam pedir-lhe protecção.

20. A igreja de Santa Sofia foi rodeada pelo exército e pela polícia. A população de Constantinopla encontrava-se em torno da igreja, pedindo a cabeça de Eutrópio e protestando contra Crisóstomo, que protegia o tirano.

21. Crisóstomo saiu à porta da igreja, frente ao povo e aos soldados. Disse que, independentemente das leis que podiam promulgar os ministros, a igreja seria sempre um lugar sagrado de asilo. Ele, enquanto bispo, tinha o dever de defender a igreja e o seu direito de asilo. Assim, disse Crisóstomo, ninguém poderia entrar nela, a não ser por cima do seu cadáver. Enquanto tivesse vida não permitiria a ninguém tocar a quem houvesse solicitado refúgio à igreja. Os soldados responderam que tinham ordens de fazer sair Eutrópio, o infame, o inimigo da igreja…mas Crisóstomo impediu a passagem dos soldados. Repetiu-lhes que a Igreja era o corpo de Jesus Cristo e que um bispo devia defendê-la.

22. Os soldados insistiram para entrar e já que Crisóstomo não podia resistir de outro modo, abriu a vestimenta sobre o peito e pediu que o matassem antes de entrarem na igreja. Os soldados e a multidão não se moveram. O bispo pediu para ser conduzido ao imperador e que lhe permitisse falar pessoalmente com Arcádio.

23. Antes de partir, João Crisóstomo fechou a sua igreja à chave.

24. Arcádio recebeu o bispo imediatamente. Este disse-lhe simplesmente que a Igreja gozava de imunidade por um direito sagrado e que podia, em virtude desse direito divino, conceder asilo a Eutrópio. A igreja podia acolher a todos os homens que se refugiassem nela, perseguidos pela justiça humana. O imperador chorou e o seu choro acalmou o povo e os soldados, como por arte de magia. Todos se calaram, comovidos, enternecidos. Já não pediam a cabeça de Eutrópio e este seguiu com vida, escondido na igreja.

25. Crisóstomo era parecido com David, porque havia vencido o exército e a multidão… sozinho. Era algo espectacular. O valor de João crisóstomo encheu de estupefacção ao povo. A certa altura disse o bispo: “Não temais a cólera do homem poderoso, não temais mais que a tirania do pecado. O homem não vos pode prejudicar. Apenas vocês podeis fazê-lo”.

26. Quando chegou o dia da missa, a igreja de Santa Sofia de Constantinopla encheu-se como nunca. Queriam ver o espectáculo de Eutrópio. Mas Crisóstomo percebeu que precisava de predicar. Começou por citar o Eclesiastes: “Neste momento é-nos permitido dizer como o sábio: vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, assinalando com o dedo ao homem miserável que seguia de joelhos, assustado, cheio de medo perante a multidão.

27. Crisóstomo perguntou a Eutrópio: “Onde estão agora os esplendores do poder consular? Onde está o fulgor das lamparinas e das tochas? Onde estão os aplausos e os coros, as danças, os festins e as alegres reuniões? Onde estão as mesas cheias de carne, o vinho bebido de mão em mão durante dias inteiros, os diversos refinamentos dos cozinheiros, a linguagem aduladora dos servidores do poder? Tudo passou…”

28. Voltando-se para Eutrópio, disse Crisóstomo: “Não te dizia eu continuamente que a riqueza é fugitiva? Tu não me fizeste caso.” Crisóstomo disse aos fiéis que evitassem os pecados de Eutrópio. Que lhes servisse de exemplo. Mas manteve a decisão de continuar a proteger Eutrópio. “Atacava a Igreja? Sim, mas refugiava-se nela! Existe acaso algum triunfo mais brilhante que a presença desse culpado neste recinto? Respeitai a Eutrópio no seu asilo…Está ali, o mais belo adorno do altar…Ele mesmo encerrou este asilo e suprimiu com a sua própria lei o perdão que agora implora. Sem dúvida, a inviolabilidade deste asilo é mais forte e mais manifesta devido à sua acção.”

29. Crisóstomo manteve Eutrópio na igreja, debaixo da sua protecção, durante três dias. Uma só pessoa, no entanto, não podia renunciar à vingança: Eudóxia. Uma mulher quer mais a vingança do que a sua própria vida. Eudóxia enviou emissários à igreja. Os emissários imperiais juraram a Eutrópio que não tinha nada que temer. Eutrópio acreditou neles. Tão pronto abandonou a igreja, foi detido, acorrentado, condenado e exilado para Chipre. O imperador não queria condenar à morte o seu antigo cônsul porque prometera salvar a sua vida.

30. O imperador Arcádio não queria violar o seu juramento. Eudóxia encontrou então um magistrado chamado Aureliano, que começou a instruir o processo judicial do eunuco…de forma a perdoar todos os crimes, como queria o imperador. Mas, ao mesmo tempo, devia ser condenado, para agradar à imperatriz. Era fácil para um magistrado. A justiça possui a sua própria lógica. A justiça pode condenar um homem deixando-o em liberdade e pode deixá-lo em liberdade condenando-o.

31. Eutrópio foi perdoado por todos os crimes que cometeu no curso da sua vida. Foi perdoado pelos insultos infligidos à imperatriz. Foi perdoado pelos saques, abusos de confiança, tormentos, assassinatos, corrupção, etc. Tudo como se lhe prometeu. Perdoou- se tudo. Mas, durante a instrução, Aureliano, o Prefeito do Pretor, descobriu um retrato de Eutrópio, feito no dia em que o eunuco tomou posse do seu cargo de Cônsul. O olho do magistrado instrutor buscou um novo crime a que o imperador não houvesse concedido o seu perdão, porque não o conhecia. Assim, pois, o magistrado procurou um novo crime no retrato do eunuco. E encontrou no uniforme consular, misturado com as outras insígnias levadas por Eutrópio, uma insígnia que não figurava no uniforme oficial dos cônsules. Era uma insígnia, uma estrela que o alfaiate coseu no uniforme, entre os demais adornos, talvez por negligência ou por ignorância. Mas unicamente o imperador tinha direito a levar essa minúscula insígnia. Qualquer outro que a levasse fazia-se culpado do crime de lesa majestade. E o castigo era a morte.

32. Assim, pois, Eutrópio perdeu a cabeça por um fio, por uma insígnia, por um botão que levou num dia numa túnica, quem sabe sem sequer saber que o levava. Devido a este adereço, Eutrópio perdeu a cabeça. Mas os demais crimes foram-lhe perdoados. O imperador jurou perdoá-los. O imperador manteve o seu juramento.

33. Eutrópio foi decapitado em Cólquida. As suas estátuas foram destruídas. Os seus bens foram confiscados. Mas o abuso de poder e a injustiça não desapareceram com ele.

34. Veio o tempo do poder de Eudóxia e das suas três amigas: Eugrafia, Castricia e Marsa. Ficariam para a história como um autêntico símile da vaidade.

São Martinho do Vale, 23.IV.2018
Hélder Filipe Azevedo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s