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Livro da Semana: Os Caracteres, de Teofrasto

caracteres_teofrastoOS CARACTERES, Teofrasto. Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1999.

Começou por se chamar Tírtamo, depois, Aristóteles passou a chamar-lhe Teofrasto, o que têm dons divinos no uso da palavra. Foi um filósofo grego que viveu entre 372 e 287 a.C.

A grande ligação da sua vida foi com o filósofo de Estagira, Aristóteles, de quem ficou amigo, ao ponto do filósofo peripatético (nome que vem de jardim com a sombra de um pórtico deambulatório) lhe ter legado em testamento a educação dos seus filhos, a sua biblioteca e a sua escola, nomeando-o sucessor no Liceu.

Escreveu Os Caracteres, uma obra de pendor moral, sobre aquilo que caracteriza o pior da personalidade que se difunde entre o povo grego. São trinta retratos, cada um dedicado a um tipo humano. O mundo para onde nos remete é essa Atenas do século IV a.C., no tempo de Filipe da Macedónia e de Alexandre, o Grande. Acaba por ser um perfil da época, mas também da própria natureza humana, já que ainda hoje persistem estes traças de personalidade, ou, melhor dizendo, estes distintos e acintosos caracteres. Como exemplo, deixo-vos o carácter do pedante (a primeira coisa de se aprende em filosofia é a não ser-se pedante):

XXI
O pedante
O pedantismo é uma mania, sem sentido, da superioridade.

2. Eis o perfil do pedante. Se o convidam para um jantar, há-de arranjar maneira de se sentar ao lado do dono da casa.

3. Quando chega o momento de o filho cortar o cabelo, leva-o a Delfos.

4. Preocupa-se em se fazer acompanhar de um escravo etíope.

5. Mina que tenha de pagar, fá-la pagar com dinheiro novo.

6. Tem em casa um gaio de estimação; é menino para lhe comprar um poleirinho, fazer-lhe um escudozinho de bronze, para a ave saltitar no poleirinho assim equipada.

7. Se sacrifica um boi, pendura-lhe a caveira à porta de casa, envolta num mar de fitas, para que quem entra veja que ele matou um boi.

8. Depois de desfilar num cortejo, entre os cavaleiros, entrega ao criado todo o resto do equipamento para levar para casa; enfia então o casaco do costume e vai passear para a ágora, de esporas nos pés.

9. Se lhe morre um cachorrinho de Malta, faz-lhe um jazigo com um epitafiozinho, onde manda gravar: “Cepa de Malta!”.

10. Se dedica uma figazinha de bronze no tempo de Asclépio, todos os dias a vai polir, cobrir de flores e perfumar.

11. É sujeito que se mete numa pritania para obter o encargo de anunciar em público os sacrifícios. Avança então vestido de ponto em branco, todo engrinaldado, a apregoar: “Atenienses, nós, os prítanes, festejámos as Galáxias em honra da Mãe dos Deuses. O sacrifício foi favorável. Recebei pois, vós, essa bênção”. Depois da proclamação, de regresso a casa, vai impingir à mulher o sucesso estrondoso que teve.

© Hélder F Azevedo, VII.2018

Categorias:Uncategorized

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