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Livro: Conversas com Wittgenstein

Conversas com Wittgenstein (capa) 001Oets Kolk Bouwsma

Conversas com Wittgenstein, 1949-1951

A meio do século XX, O. K. Bouwsma conviveu com um dos maiores filósofos do século – apenas comparável a M. Heidegger – Ludwig Wittgenstein. Estes dois feiticeiros da filosofia permanecem ainda hoje como fonte de espanto e de fascínio. Isaias, no capítulo 45, versículo 9 dizia:

“Pois tal como os Céus são mais altos que a Terra, assim os meus caminhos são mais altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos que os vossos pensamentos.”

Wittgenstein era isto.

O filósofo austríaco, naturalizado britânico, acedeu a participar numas tertúlias e sabatinas, juntamente com alguns amigos. Aí, entre Cornell, Smith College e Oxford, pensou e falou essencialmente sobre a possibilidade ou impossibilidade da ética, ou melhor, sobre o sentido da ética e todas as esferas que rodeiam esse sol enganador. É nessa reflexão filosófica e radical que encontramos o mal, por exemplo, ou o orgulho, ou mesmo a frivolidade. Com lamento, chega à conclusão que a ética é o reduto dos contraditos e dos maus filósofos.

Além do mais, Wittgenstein discorreu sobre muitas outras coisas, como a simplicidade da vida ou mera existência mundana. Diz-nos o filósofo que “Houve um tempo em que o mobiliário das nossas vidas era bastante simples: uma casa, um lugar, umas tantas ferramentas, um animal e uma roda de outras pessoas. No quadro dessa simplicidade e dessa estabilidade, crescíamos em ligação a um meio circundante limitado. O que dava certa qualidade a uma vida – raízes. Hoje, as pessoas estão apenas de passagem, ao mesmo tempo que os seus vizinhos mudam também. Vivemos em circunstâncias a que não nos sentimos afectivamente apegados. A maior parte das coisas que usamos e possuímos podem ser substituídas por outras de qualidade equivalente.”

Também reflectiu sobre a língua, ele que era detentor (ou prisioneiro) de uma linguagem poderosa como o alemão. Considerava o Esperanto, a título de exemplo, insuportável. Uma língua sem qualquer sentimento, sem riqueza.

Já nos últimos encontros, em Oxford, à sombra de uns salgueiros, meditou e compartilhou ideias sobre a natureza da verdade religiosa. Por meio de um conto de Keller, o próprio Wittgenstein dizia: «A minha religião – a minha consciência, a minha maneira de ver – é que hoje ajo bem, mas que poderá não ser sempre assim.» A religião é assim o sentido que o homem tem da sua dependência. E diz-nos que F. Schleiermacher, um hermeneuta e teólogo protestante, era um homem sério, que nada tinha de estúpido, e, como tal, pretendia dizer que a religião não é o reino dos estúpidos. Por sério queria dizer um homem que suportava o conflito e a luta, que voltava uma e outra vez a certas questões. Que combatia. Wittgenstein não se opunha às crenças de ninguém, mas também recitava: Not lehrt uns Beten [A miséria ensina-nos a rezar].

Bouwsma conviveu com Wittgenstein até 1951, o ano em que este filósofo maior da cultura europeia morreu, vitimado pelo cancro. As suas últimas palavras fora: “Tive uma vida maravilhosa“, e assim foi-se essa luz que iluminou um tempo sombrio.

HFA, I.VIII.MMXVIII

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