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“καὶ ὂτι ὀ ἃνθρωΠος φὺσει Πολιτικὸν ζωον” Aristóteles

Por Isaiah Berlin, a biografia mais concisa e acessível do filósofo e idealista alemão Karl Marx

Por Isaiah Berlin, a biografia mais concisa e acessível do filósofo e idealista alemão Karl Marx

KARL MARX: NÓTULAS.

“Nunca posso procurar em sossego aquilo que mantém cativa a minha alma, nunca descansar contente e em paz, e trovejo sem cessar.”

  1. Infância e Adolescência

    • Karl Heinrich Marx, filho mais velho de Heinrich e Henrietta Marx, nasceu a 5 de Maio de 1818 em Trevéris, na Renânia alemã, onde o seu pai exercia a profissão de advogado.
    • Marx provinha de uma familia judaica que havia saído beneficiada pela invasão napoleónica que havia destruído o edificio tradicional de estatutos e privilégios sociais, de barreiras raciais, políticas e religiosas, pondo no seu lugar o recém promulgado Code Civil que reinvidicava como fonte da sua autoridade os princípios da razão e da igualdade entre os homens.
    • Marx era o filho varão mais velho e veio a ser profundamente influenciado pelo seu pai, um judeu que se havia distanciado da religião e aderido aos ideais iluministas. Era um homem de Estado, admirador de Frederico o Grande e um advogado moderado.
    • Marx nunca teve qualquer afinidade de maior com a sua mãe, Henrietta Pressburg que pertencera a uma familia de judeus húngaros estabelecidos na Holanda, onde o seu pai fora rabino, nem com os seus irmãos. O pai fora a sua maior influência familiar e teve também no seu vizinho Von Westphalen um amigo e preceptor importante.

  2. Para muitos dos seus seguidores, Marx surgia no seu papel de mestre-escola alemão dogmático e sentencioso, disposto a repetir indefinidamente as suas teses, com crescente aspereza, até a essência delas estar indelevelmente alojada nas mentes dos seus discípulos.

  3. Marx denuncia a ordem existente fazendo apelo não a ideais mas à história; denuncia-a, regra geral, não por ser injusta, ou desafortunada, ou devido à maldade ou à insensatez humanas, mas por ser o efeito de leis de evolução social que tornam inevitável que num certo estágio da história uma classe, prosseguindo os seus interesses com um grau variável de racionalidade, deverá desapossar e explorar outra e assim conduzir à repressão e à mutilação dos homens. Os opressores estão sob a ameaça não de uma retribuição deliberada por parte das suas vítimas mas da inevitável destruição que a história (sob a forma de actividade baseada nos interesses de um grupo social antagónico) lhe reserva, como classe que cumpriu a sua tarefa social e está consequentemente condenada a desaparecer em breve do palco dos acontecimentos humanos.

  4. Hegel: “o real é o racional e o racional é o real”. Tantos os velhos hegelianos (de direita) como os jovens hegelianos (esquerda) concordavam em que isto havia de ser interpretado como significando que a verdadeira explicação de qualquer fenómeno era equivalente à demonstração da sua necessidade lógica – que para eles queria dizer, histórica ou metafísica – que era o mesmo que a sua justificação racional.

  5. A história da sociedade é a história do homem em busca de alcançar o domínio de si mesmo e do mundo exterior por meio do seu labor criativo. Esta actividade encarna na luta de classes opostas, uma das quais tem de emergir vitoriosa, embora numa forma muito alterada: o progresso é constituído pela sucessão de vitórias de umas classes sobre outras. Estas corporizam a longo prazo o avanço da razão.

  6. “Die weltgeschichte ist das weltgericht”, a história do mundo é a justiça do mundo. F. Schiller. Feuerbach declara que a força motora da história não era espiritual mas a soma das condições materiais que em qualquer momento dado determina que os homens que vivem nelas pensem e ajam como o fazem.

  7. A libertação gradual da humanidade tem prosseguido numa direcção definida, irreversível: cada nova era é inaugurada pela libertação de uma classe até aí oprimida.

  8. O socialismo não apela, exige; não fala de direitos , mas da nova forma de vida, liberta as estruturas sociais constrangedores, perante cuja inexorável aproximação a velha ordem social começou visivelmente a desintegrar-se. As concepções e ideais morais, políticos e económicos alteram-se com as condições sociais de que brotam: tomar qualquer deles por universal e imutável é equivalente a acreditar que a ordem a que pertencem – neste caso a ordem burguesa – é eterna.

  9. Influência na Filosofia de Marx: a) doutrina da propriedade comunitária fundada na abolição da propriedade privada: Morelly, Mably, Babeuf; b) materialismo histórico: Holbach, Espinosa, Feuerbach; c) história humana como guerra entre classes sociais: Linguet, Saint Simon; d) teoria científica da inevitabilidade da recorrência regular das crises económicas: Sismondi; e) a ascensão do Quarto Estado: Primeiro comunistas franceses, Stein, Hess; f) ditadura do proletariado: Babeuf, Weitling, Blanqui; g) importância dos trabalhadores  num Estado Industrial: Louis Blanc; h) teoria do valor-trabalho: Locke, Adam Smith, Ricardo; i) teoria da exploração e da mais valia: Fourier; j) controlo estatal dos meios de produção: Bray, Thompson, Hodgskin; k) teoria da alienação dos proletários: Max Stirner; l) há ainda a influência de Hegel e da filosofia alemã. Há claramente uma síntese do idealismo alemão, racionalismo francês e da economia política inglesa.

  10. A filosofia de “O Espírito”
    “Aquilo a que chamais de espírito do tempo (Geist der Zeiten) é, no fundo, o espírito das suas iluminárias – um espelho em que o tempo se revê”. Johann GoetheTem existido ao longo de muitos séculos passados, uma classe de homens que, apercebendo-se de que o seu poder assenta na ignorância, que cega a maior parte dos homens para a injustiça, fomenta a desrazão por todas as invenções e meios na sua posse.Na alemanha domina o hegelianismo que se reflecte em aspectos como:- a reforma tem de brotar de um solo historicamente preparado; de outro modo está condenado ao fracasso.- a verdadeira liberdade consiste no autodomínio, escapar ao controlo exterior. Isto só pode ser alcançado pela descoberta do que somos e podemos tornar-nos: isto é, pela descoberta de leis a que, no tempo e no lugar em que vivemos, estamos necessariamente sujeitos e pela tentativa de tornar actuais aquelas potencialidades da nossa natureza racional, obediente às leis, cuja realização faz progredir o indivíduo e dessa maneira a sociedade a que organicamente pertence e que se exprime nele e noutros como ele.


     

  11. Materialismo Histórico- A história não é a sucessão dos efeitos sobre os homens do meio exterior ou das suas próprias inalteráveis constituições ou sequer do jogo entre esses factores. A sua essência é a luta dos homens para realizarem todas as suas potencialidades humanas e, visto que são membros do reino natural, o esforço do homem para se realizar completamente é um tentar escapar a ser joguete de forças que são ao mesmo tempo misteriosas, arbitrárias e irresistíveis – ou seja, alcançar o domínio delas e de si próprio, que é a liberdade.- O homem atinge essa subjugação do mundo pelo trabalho, pela moldagem consciente do meio ambiente e uns dos outros.- O trabalho transforma o mundo do homem, e transforma-o a ele também, no curso da sua actividade.- A história da sociedade é a história dos trabalhos inventivos que alteram o homem, alteram os seus desejos, hábitos, perspectiva, relações tanto com os outros homens como com a natureza física, com a qual o homem está em perpétuo metabolismo físico e tecnológico.

    – o trabalho é o que torna os homens e as suas relações aquilo que são, dados os factores relativamente invariáveis do mundo externo no qual nascem; a sua distorção pela divisão do trabalho e pela guerra de classes leva à degradação, à desumanização, a relações humanas pervertidas e à consciente ou inconsciente falsificação da visão necessária para manter esta ordem e esconder o verdadeiro estado de coisas.

    – Para Marx, a alienação (pois isso é o que Hegel, seguindo Rousseau e Lutero e uma anterior tradição cristã, chamava ao perpétuo autodivórcio dos homens da união com a natureza, de uns com os outros, com Deus, que o combate entre tese e antítese implicava) é intrínseca ao processo social, é mesmo o cerne da própria história.

    – A alienação ocorre quando os resultados os actos dos homens contradizem os seus verdadeiros propósitos, quando os seus valores oficiais, ou os papeis que desempenham, não representam fielmente os seus verdadeiros motivos e necessidades e objectivos.

    – o mito mais opressivo de todos, na demonologia de Marx, é a ciência económica burguesa, que representa o movimento de mercadorias ou do dinheiro como um processo impessoal semelhante aos da natureza, um padrão inalterável de forças objectivas perante as quais os homens não podem senão curvar-se e a que seria uma loucura tentar resistir.


     

  12. Marx concluiu que a instalação do comunismo só podia ser realizado por um levantamento do proletariado. Toda a sua existência se concentrou na tentativa de organizar e disciplinar para essa missão. Considerava o sofrimento moral ou emocional e as crises espirituais outros tantos luxos burgueses, imperdoáveis em tempo de guerra.

  13. Em 1848 a Liga Comunista, em Londres, encomenda a Marx e a Engels a composição de um documento que contivesse uma proclamação definitiva das suas convicções e objectivos: surge o Manifesto do Partido Comunista. Abre com uma frase ameaçadora que revela o seu tom e a sua intenção: “Um espectro está a assombrar a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa entraram numa santa aliança para exorcizar esse espectro: Papa e Czar, Metternich e Grizot, radicais franceses e polícia alemã […] o comunismo já é ele próprio reconhecido como uma potência por todas as potências europeias.”

  14. A revolução terá de diferir em diferentes circunstâncias mas as suas primeiras medidas em toda a parte têm de ser a nacionalização da terra, do crédito e do transporte, a abolição dos direitos de herança, o aumento de impostos, a intensificação da produção, a destruição das barreiras entre campo e cidade, a introdução do trabalho obrigatório e da educação gratuita para todos – só então pode começar uma séria reconstrução social.

  15. O Manifesto conclui com as palavras célebres: “os proletários nada têm a perder a não ser as suas grilhetas. Têm o mundo a conquistar. Proletários de todo o mundo, uni-vos!”

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