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AS MELHORES INTENÇÕES (1992)

Trailer

The Best Intentions 1992

The Best Intentions
1992

De há um par de meses para cá tenho me dedicado ao estudo do grandioso realizador sueco Ingmar Bergman. É uma feliz coincidência que “Bergman” em alemão signifique “mineiro”, aquele que trabalha arduamente as entranhas da terra na busca de uma matéria preciosa. É uma imagética daquilo que Ingmar Bergman foi, um mineiro do espírito humano!

Visualizando obras fundamentais como “Persona”, “Luz de Inverno” ou a “Hora do Lobo”, e depois, já neste fim-de-semana, lendo a sua autobiografia “A lanterna Mágica” e vendo o filme de Bille August (com argumento de Ingmar) “As Melhores Intenções”, uma obra que retrata a história dos pais de Bergman (Henrik, um pobre estudante de teologia e depois pastor luterano, e Anna, uma jovem de família nobre e rica e, além disso, mimada), começo a compreender o mundo bergmaniano, os muros que não se derrubam, os recalcamentos ali onde a vontade não domina, a asfixia luterana, as patologias de uma educação autoritária, os ciúmes, os amores e os estranhamentos!

É um mundo terrível povoado de genialidade e desencantamento, como se Bergman fosse esse “dasein”, esse ser-aí, lançado no mundo, perdido, desamparado, sem possibilidade de regeneração mas que, num ímpeto de teimosia, ousou exorcizar todos os “mefistófeles” que povoam a psique humana.

Um realizador absolutamente obrigatório, um necessário auxílio na busca daquilo a que chamamos “europeus” e às suas múltiplas formas e contradições.

Diário de um Padre de aldeia

Diário de um Pároco de aldeia

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA (1951)

Na adaptação ao cinema da obra homónima de Georges Bernanos, sobressai a genialidade do realizador Robert Bresson e a sua capacidade estético-linguística de transmitir a dimensão solitária, abandonada da fé cristã (católica) no embate contra uma realidade crescentemente racionalista e positivista, onde a própria ideia de “morte de deus” ultrapassara os muros do academicismo e as fronteiras do intelectualismo. Este filme, de 1951 – ainda um ano maldito para a consciência histórica do mundo -, não pode apenas ser resumido a um qualquer panfleto reactivo ou um “panegírico” propagandista de um revivalismo dos êxtases divinos contra o cientificismo positivista, contra a ordem, a técnica, o mundo moderno enfim…, não! Esta obra é uma imagem que teima em se fazer ver – uma espécie de “momento dialético” que procura como tese iluminar e cegar a antítese vigente (como últimos lampejos diante da escuridão eterna).
Tal como “O laço branco” de Michael Haneke encarna o propósito de nos transmitir a origem educacional ou a génese espiritual da tragédia germânica da primeira metade do século XX, com o seu idealismo descarnado de sentimento, de humanidade (em toda a sua dimensão, como o erro, a incompletude, o pecado, etc) e que viria a impor uma alienação como condição existencial, algo absolutamente inimaginável, também esta obra antecedente lança um alerta, sinaliza um mundo oculto (perdido?) que ousava reafirmar-se continuamente num espaço inabitável, que deixara de ser vital…e que já não lhe pertencia! Talvez a obra – o livro e o filme – seja a objectivação do último sopro de um espírito que se foi, esvaído no éter da memória, deixando apenas um especto a pairar…e que pode ser representado pela arte e pelo mito!
Nota 10/10

A CIDADE DOS MORTOS (Trailer)

Documentário, de Sérgio Tréfaut, 2011.

E se lhe contassem que mais de um milhão de pessoas vivem num cemitério, acredita? Pode acreditar, pois essa verdade existe no Cairo, Egipto, onde tal massa humana – os pobres dos mais pobres – se misturam entre a vida e a morte, numa autêntica cidade surreal, que ultrapassa os sonhos mais fantasiosos da literatura universal.

Dormir ao lado de cadáveres, respirar o intenso pó sepulcral, escutar o silêncio aterrador da morte, comer com quem não come, pulsar com com não respira, amar com quem nadifica! Esta realidade aterradora chegou-nos ao cinema em 2011 pela mão de Sérgio Tréfaut, e mostra-nos, quiçá de forma ultra-realista, a verdadeira condição humana reflectida num espelho que não têm duas faces.

Olhamos para a pobreza e vemos a injustiça, olhamos para a religião e vemos a loucura, olhamos para a vida e vemos a morte, olhamos para a matéria e vemos a redução ao elemento mais básico, o pó, olhamos para tudo e nada vemos, a não ser a ideia de que o homem vive para a morte mais do que a morte impulsiona a vida. É como se existisse um constante chamamento para o nada, para esse descanso dos tormentos e das loucuras terrenas que desgraçadamente atormentam os espíritos mais inquietos.

Recomendo este documentário a todos aqueles que queiram reflectir sobre a condição humana no seu estado mais primário. Que queiram saber um pouco sobre a miséria, a vida, a morte, o Islão e a cotidianidade.

É um filme que nos fala e ao qual devemos escutar!
Nota: 8/10