O herem de Espinosa

SpinozarHerem, na cultura judaica, significa censura. É aplicado a quem cometa uma ofensa grave que atente, essencialmente, contra os valores inerentes ou teologicamente substanciais da própria religião e aos seus preceitos mais distintivos. Equivale à Excomunhão na religião católica. Em 1656 foi publicado em Amesterdão, na Theba, o herem contra Baruch de Espinosa, um filósofo racionalista, filho de judeus portugueses exilados.

No excerto do herem de Espinosa podemos compreender o poder da linguagem e como um exercício de crueldade pode ser tão belo e luminoso.

   “Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinosa seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como actualmente o põe em herem, com o Herem seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, como o herem que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

herem_espinosaEis como as palavras podem ser como um punhal, como diria o poeta português Eugénio de Andrade. Depois de ler este acto de maldição, ninguém fica indiferente ao poder que a linguagem consegue encerrar em si mesma. Espinosa sobreviveu. Antes dele, um outro filósofo judeu, português radicado na Holanda, Uriel da Silva, não aguentara a humilhação e suicidara-se!

A linguagem do herem de Espinosa é, para mim, o exemplo maior da violência sem o uso da força. E é um bom motivo de reflexão.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Pierre Teilhard de Chardin: A Nostalgia da Frente

Pierre Teilhard de Chardin foi um importante teólogo francês do século XX. Nasceu em Sacernat, a 1 de Maio de 1881 e foi o quarto filho de uma família de onze irmãos. Entrou para os jesuítas em 1899 e estudou filosofia e teologia. Entre 1906 e 1908 foi professor de Física no Cairo, onde adquire um certo gosto pela geologia e paleontologia. Foi ordenado padre em Hastings, em 1912.

Entre 1914-18 é recrutado para a grande guerra, lutando na frente de batalha, inserido no 4º Regimento de Zuavos, com o posto de Sargento-enfermeiro. No fim da guerra é agraciado com a Medalha Militar e a Legião de Honra.

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Em 1922, doutora-se em ciências e exerce o professorado no Instituto Católico de Paris. A partir de 1923 começam as suas expedições um pouco por todo o mundo. Vai à China, à Somália, à Birmânia, à África do Sul e à Índia.

Em 1950 é eleito membro da Academia Francesa de Ciências. É-lhe oferecido uma cátedra no Collège de France, mas não aceitou. É nomeado então adido da fundação americana para investigações antropológicas. A partir de 1951 fixa-se em Nova Iorque, mas em 1953 parte numa segunda missão à África do Sul. No fim, passa dois meses na sua França natal.

Morre em Nova Iorque a 10 de Abril de 1955, no dia de Páscoa.

Na sua obra Escritos do Tempo da Guerra expões o seu existencialismo puro e um espiritualismo cósmico que permanece pouco explorado. A meio da obra escreve um capítulo intitulado A Nostalgia da Frente onde materializa no papel toda essa experiência radical que viveu na frente de batalha. Para se compreender o alcance dessa exposição, pode escutar, acima, uma recitação da introdução ao capítulo.

Citação:

“(…) a Frente permanece para mim o Continente, cheio de mistérios e de perigos, que surgiu no nosso Universo de reconhecida falsificação. Vislumbro-o sempre como a fronteira do Mundo conhecido, a «Terra prometida» aberta aos audaciosos, a orla de no man’s land… 

Aqueles que sofreram, até à morte, de sede ou de frio, não podem mais esquecer os desertos ou os bancos de gelo onde experimentaram o extraordinário inebriamento de estarem sós e serem pioneiros.”

Em 1956, já depois da sua morte, é feita uma recolha e uma compilação dos seus relatos de viagem. Recebeu o nome de Lettres de Voyage. Aqui somos levados pelos caminhos do mundo e da vida de um homem que ousou viver intensamente.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

“Apenas a fantasia permanece jovem para sempre; o que nunca ocorreu, jamais poderá envelhecer”. Schiller

Stefan Zweig – Adeus Europa (filme)

stefan_zweigSTEFAN ZWEIG: Adeus Europa. Maria Schrader, Áustria/Alemanha/França, 2016. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

Stefan Zweig (1881-1942), junto com Thomas Mann, foi o maior expoente literário alemão da primeira metade do século XX. A sua condição social – judeu e alemão – levou-o a viver na inquietude permanente, tentando encontrar uma síntese dialéctica capaz de superar essas aparentes contradições que emergiam numa tensão histórica. Tentou encontrar o ser do cidadão europeu, uma espécie de natureza intrínseca ao ser-se europeu. Assistiu ao definhar da República de Weimar, a vanguarda do constitucionalismo liberal na Europa ocidental, e assistiu à loucura colectiva dos europeus em geral, e dos alemães em particular, que decidiram caminhar os trilhos da barbárie. O seu suicídio foi o epílogo de uma obra simultaneamente luminosa e trágica. Talvez tenha sido a última homenagem de um atormentado à liberdade e um aviso de horror ao tempo, matando-o pela vontade,  que conduzia a transição do velho para o novo mundo, e a um continente que tanto amava e que se perdera nos meandros da loucura.

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Amante, por simpatia e gratidão, de um Brasil jovem e exuberante, Stefan Zweig procurou encontrar aí um símile do paraíso, mas o paraíso é, para um humano (demasiado humano, como disse Nietzsche), um lugar estranho. A inadaptação passa a condição natural. A morte foi a consequência inevitável.

À Europa, a sua grande paixão, legou o autor inúmeros pensamentos, múltiplos avisos, longos diálogos e, além do mais, linguagens distintas que pretenderam constituir a estrutura cultural de diferentes povos emergidos a partir de uma única essência. Era aí que pretendia chegar. Uma missão impossível.

Realizado por Maria Schrader, em 2016, com actores europeus conceituados, como Josef Hader e Barbara Sukowa, além de prestigiados actores portugueses, o filme foi rodado na ilha de São Tomé e galardoado em festivais de cinema na Alemanha e na Áustria.

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Um filme interessante que vale, sobretudo, como uma efémera viagem ao mundo de um escritor fascinante. Para um estudo mais aprofundado, recomendo a leitura da obra O Mundo de Ontem: Recordações de um europeu, publicado em Portugal pela Assirio & Alvim. Nota 9/10.

Série – 1992

1992_mille_novecento_novantadue_tv_series-188422000-large1992 foi uma dramática série italiana, de 10 episódios, de 2015, criada por Alessandro Fabbri e produzida pela Sky Atlantic. Passou recentemente na RTP2.

A trama desenrola-se nesse famigerado ano de 92, onde num mesmo palco atuam a política (a queda dos socialistas e dos democratas cristão e a ascensão da Liga Norte), a justiça (Operação Mãos Limpas e Assassinato de Giovanni Falconi), a máfia (um poder inefável), o mundo do espetáculo (o surgimento da televisão privada onde se jogam redes de influência, já com um Berlusconi mediático) e o desalento de quem vê um país maldito à procura de renascer. É uma daquelas descobertas pelas quais agradecemos pela existência de um serviço público de televisão.

Para gáudio de quem gostou, é importante salientar ainda que foram encomendadas duas sequelas: 1993 e 1994, o que augura algo de muito bom.

Numa nota pessoal, confesso que há dois países europeus que me fascinam particularmente: a Alemanha e a Itália. Analisados filosoficamente, faço sempre um paralelo com F. Nietzsche e o seu Apolíneo e o Dionisíaco. A Alemanha simboliza, para mim, o deus Apolo, o deus da ordem, da mesura, da razão, enquanto a Itália parece-se mais com o deus Dióniso, o deus do excesso, do vinho, das festas bacantes ou orgiásticas e, afinal, do sentimento ingénuo e primitivo. Dois extremos fascinantes para quem olha ao longo.

Sobre a série, só posso recomendar efusivamente. É uma série excepcional.

A Morte de um Teólogo

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Melanchthon, de Lucas Cranach, 1532

A Morte de um Teólogo, de Jorge Luis Borges

Na magnífica compilação de contos intitulada História Universal da Infâmia, o escritor argentino, Jorge Luis Borges, de ascendência judaico-portuguesa, conta-nos a história post mortem de Philip Melanchthon, um dos mais importantes teólogos luteranos. Para os luteranos, desses primeiros tempos, a fé ocupava todo o espaço na relação da criatura com o criador. Esquecerem-se dos valores humanos que caracterizavam a natureza de um cristão: a bondade, a tolerância, a humildade e, essencialmente, a caridade. O conto pretende salientar a importância precisamente da caridade. Reza assim a história:

“Os anjos comunicaram-me que quando morreu Melanchton, foi-lhe proporcionada no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade lhes aconteceu o mesmo e por isso creem que não morreram.) Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a secretária com as suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton acordou nessa morada recomeçou as suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver e escreveu durante uns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse uma só palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas interrogá-lo. Melanchton disse-lhes: “Demonstrei já irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta a fé.” Dizia essas coisas com soberba e não sabia que já estava morto e que o seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os móveis começaram a tornar-se fantasmas até serem invisíveis, exceto a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disto, as paredes do aposento mancharam-se de cal, e o soalho de um verniz amarelo. A sua própria roupa já era muito mais ordinária. Continuava, contudo, a escrever, mas como persistia na negação da caridade, levaram-no para uma oficina subterrânea, onde havia outros teólogos como ele. Aí esteve uns dias encarcerado e começou a duvidar da sua tese e permitiram-lhe regressar. A sua roupa era de couro não curtido, mas tratou de imaginar que o passado fora uma mera alucinação e continuou a exaltar a fé e a denegrir a caridade. Um entardecer, teve frio. Então percorreu a casa e comprovou que os outros compartimentos já não correspondiam aos da sua habitação na Terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro havia diminuído tanto que era impossível entrar; outro não mudara, mas as suas janelas e as suas portas davam para grandes dunas. O compartimento do fundo estava cheio de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio como ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham cara e outras pareciam mortos, acabou por detestá-las e desconfiar. Então resolveu escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque as escrevia sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta, mas tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para lhes fazer crer que estavam no céu, entendeu-se com um bruxo do compartimento do fundo, e este enganava-os com simulacros de esplendor e serenidade. Logo que as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, por vezes até um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem cara o levaram para as dunas e que agora é como um servo dos demónios.”

Fonte: BORGES, Jorge Luis, História Universal da Infâmia. Lisboa: Editora Quetzal, 2015, pp. 85-87.

Keys of Heaven (2014)

Keys_of_Heaven_1.60Em 1984, o Imã Khomeini, líder espiritual e político do Estado Teocrático do Irão, decide convocar todos os homens entre os 12 e os 72 anos para a guerra santa (guerra contra o Iraque). 500.000 pequenas chaves de plástico são importadas de Taiwan e entregues aos jovens soldados, que vão para a frente de combate. É-lhes dito que essa chave abre as portas do paraíso.

Keys of Heaven (Paratiisin Avaimet) é uma curta metragem de 2014, do realizador Hami Ramezan, que retrata o impacto que esta manipulação teve sobre a sociedade iraniana e, particularmente, sobre a juventude. É um filme muito interessante e comovente. Felizmente está disponível no canal Arte.tv, o inconveniente é que possui legendas apenas em alemão e francês.

Filme:

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Trailer: