ARTHUR RIMBAUD: Cartas de África

9788493856878Livro: RIMBAUD, Arthur, Lettere dall’Africa. Edizioni Nuages, 1991.

Mais qui sait combien peuvent durer mes jours dans ces montagnes-ci? Et je puis disparaître, au milieu de ces peuplades, sans que la nouvelle en ressorte jamais.

Magnífica coletânea das cartas do poeta Arthur Rimbaud, com ilustrações de Hugo Pratt (Corto Maltese), escritas durante a sua estadia em África, mais propriamente em Harar, na Etiópia.

As cartas denotam uma espécie de viagem transcendental, que vai do purgatório ao inferno, num poeta considerado maldito que tentou reconstruir permanentemente a sua trágica e escandalosa vida. A materialização de um sonho, a realização de um idealismo, é, muitas vezes, uma transposição brutal entre dois estádios existenciais antagónicos. A vida de Rimbaud é toda essa tragédia de quem, perdido no mundo, em angústia, quis viver na totalidade. Foi atormentado por essas doenças do espírito que enlouquecem um homem.

Na última carta, o desolado e conformado Rimbaud responde a sua mãe: “Não vos assusteis com tudo isto. Virão dias melhores. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, de tantas privações e de tantas penas. Ah, que miserável é a nossa vida!“.

Rimbaud morre a 10 de Novembro de 1891, doente e sozinho, em Marselha, depois de duas infrutíferas tentativas de retornar à sua amada Etiópia. Legou-nos contudo uma poesia misteriosa e profundamente inquietante. É uma das grandes referências dessa estrutura conformadora, vital, a que damos o nome de cultura europeia.

©Hélder Filipe Azevedo, 2017

 

“O Julgamento de Tóquio” na Netflix

image

A Netflix tem disponível esta fascinante minissérie de 4 episódios sobre o julgamento de Tóquio, onde foram a juízo a cúpula do Estado nipónico responsável pelas atrocidades no decurso da segunda guerra mundial.

Tal como em Nuremberga (julgamento das chefias e de organizações do Estado Nazi), também em Tóquio se procurau criar jurisprudência em matéria de Direito Internacional Público, nomeadamente nos casos de crimes de guerra, de agressão e crimes contra a humanidade. Ainda hoje não sabemos bem que tipo de justiça foi produzida aí e ficaram muitas questões por resolver, mas, apesar de tudo, tentou-se que a história não calasse a voz das vítimas. Vale a pena ver! https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

https://www.netflix.com/title/80091880?s=i

Sven Hedin (1865-1952)

“Nunca caminho sobre as minhas próprias pegadas. Vai contra a minha religião.”

Hedin foi um geógrafo sueco que teve a audácia de, no final do século XIX, atravessar o deserto Taklamakan (que significa “lugar sem retorno”). Registou nos seus diários todas as aventuras que viveu no oriente e pintou zonas desconhecidas dos europeus. Foi um personagem carismático mas de reputação duvidosa. Acima temos uma pintura que retrata Shigatse Dzong, a segunda cidade do Tibet, uma cidade proibida aos estrangeiros, mas que Hedin ousou contemplar em surdina, escondido, a partir das portas da cidade. Pintou-a de memória.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Vita Activa: O Espírito de Hannah Arendt

img_0238

VITA ACTIVA: O Espírito de Hannah Arendt. Ada Ushpiz, Israel/Canada, 2015. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

WINNER – BEST DOCUMENTARY – SANTA BARBARA FILM FESTIVAL

Documentário fascinante, realizado por Ada Ushpiz, sobre a filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt (1906-1975), uma das maiores pensadoras do século XX.

Este é, sem sombra de dúvidas, um dos filmes mais interessantes que veremos no presente ano. No essencial, o documentário compila um conjunto de gravações históricas, de entrevistas e opiniões sobre os temas fundamentais da vida – desde a sua infância, passando por Heidegger, seu amante, e Jaspers, seu mentor, até à sua velhice submergida num misticismo hebraico – e da obra da filósofa.

Hannah Arendt legou à humanidade do século XX em diante um pensamento profundo sobre as temáticas do poder, da história e do mal. Vale a pena conhecer um pouco do seu profundo e original pensamento. Também é uma forma de nos conhecermos a nós mesmos e ao estranho mundo que nos rodeia.

TOTALITARISMO E A BANALIDADE DO MAL

O mal é um fenómeno superficial. Resistimos ao mal não nos deixando arrastar sem pensar pela aparência da superfície das coisas convencionais. Por outras palavras: quanto mais superficial é uma pessoa, mais provável é que ceda ao mal. É essa a banalidade do mal.

O uso de lugares-comuns sinaliza essa mesma superficialidade.

A demência da manufactura massiva de cadáveres do nazismo foi precedida pela preparação histórica dos cadáveres vivos dos refugiados.

Cada ser humano é uma criatura que pensa, capaz de reflectir tão bem como eu, e é portanto capaz de julgar por si mesmo se o quiser fazer. Pensar significa sempre pensar de um modo crítico. E pensar de um modo crítico significa que o pensamento mina as regras rígidas e as convicções generalizadas.

full3Tudo o que se passa no pensamento pode ser escrutinado. Isto significa que não existem pensamentos perigosos, porque pensar é em si mesmo um empreendimento muito perigoso. Penso que o não pensamento é ainda mais perigoso.

O mal é sempre gerado pela necessidade, sem escolha, em nome do futuro.

O problema dos regimes totalitários não é o facto de jogarem à política do poder de um modo especialmente implacável, mas de, por trás da sua política, se ocultar um conceito inteiramente novo e enganador da realidade: o idealismo, é uma fé inabalável num mundo ideologicamente fictício, mais do que a mera luxúria do poder.

O mal é ideológico. Satã é ele próprio um idealista.

O mal não é apenas minucioso, é também sentimental.

A banalidade do mal é a estratégia perfeita para a penetração do mal no mundo.

A velha máxima: é melhor sofrer o Mal do que ser um agente do Mal, é verdadeira? Sócrates disse repetidas vezes que essa máxima não pode ser provada. Por um lado, é absolutamente evidente. Por outro, não há provas de que deva agir deste modo. Porque há então pessoas para quem se trata de uma máxima evidente? Esta máxima presume que eu vivo comigo mesmo, ou seja, que sou duas pessoas em uma, e digo a mim mesmo: “Não quero fazer isto”, porque não quero viver com alguém que o faz. Uma pessoa viver consigo mesma significa falar consigo mesma. É esta a base do pensamento, e é de facto uma forma de pensamento que não é técnica e de que qualquer homem é capaz.

full2Entrevistador: Não é verdade que a responsabilidade parcial que um indivíduo assume sepulta a consciência moral? Eichmann disse: “Sentei-me à minha secretária e fiz o meu trabalho.” E o antigo chefe de distrito de Danzig explicou que a sua alma oficial sempre se identificou com aquilo que fez, mas que a sua alma pessoal se lhe opunha. H. Arendt: É um fenómeno conhecido como a emigração interior entre assassinos. A actividade febril causa ela própria uma resposta de dissolução. Há uma frase idiomática em inglês: “Stop and think”, parar para pensar. Ninguém pode pensar sem parar. Quando alguém se vê obrigado a imergir em actividades constantes, ou se deixa escravizar por elas, a história repete-se. Haverá sempre uma situação que impede o despertar do sentido de responsabilidade. Este só pode despertar quando uma pessoa reflecte, não apenas sobre si mesma, mas também sobre o que está a fazer.

Temos de compreender que num regime totalitário se gera um fenómeno de desamparo. E temos de compreender que, mesmo quando uma pessoa está em desamparo absoluto, continua a haver diferentes possibilidades de reagir. Isto não significa que uma pessoa deva tornar-se criminosa. O tipo de passado que não pode ser deixado para trás é muito diferente entre vítima e perpetrador.

Eis um pensamento perigoso: Onde não há responsabilidade, não há culpa. Onde não há culpa, não há crime. Onde não há crime, não há vítima.

O perdão e a vingança pertencem um ao outro. Aquele que perdoa renuncia à vingança, porque também ele podia ser culpado. O vingador não quer perdoar, porque tem uma oportunidade de voltar àquilo que lhe foi feito. A reconciliação, no entanto, não perdoa nem aceita, antes julga.

NOVO Estatuto Jurídico do Animal

Acaba de entrar em vigor, em Portugal, o novo estatuto jurídico do Animal. Assim, o Código Civil passa a incluir novas regras decorrentes do novo conceito de animal. Passa a ser definido Animal, para efeitos de protecção legal, a natureza sensiente deste, ou seja, da capacidade de sentir prazer e/ou dor (art. 1.º). A sua protecção passa a estar garantida pelo código civil, por legislação especial e pelo código penal. O interesse do animal passa a ser levado em consideração nos processos decisórios, como o divórcio dos donos, por exemplo. Também a mera posse deixa de legitimar a fruição, o uso e o abuso, passando o sofrimento proveniente de maus tratos e a privação de alimentação e cuidados de saúde a serem considerados ilícitos civis e penais. O dono tem a responsabilidade de assegurar o bem-estar do animal, nomeadamente comida, bebida e acesso a cuidados veterinários. Esta alteração releva também para efeitos de responsabilidade civil.
Se bem que lentamente, esta alteração jurídica é fundamental para deixar-se de considerar o animal como uma coisa.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Die geliebten Schwestern (filme)

3040ed6a4d489ecbc5b3b7aa22d02f73

Die geliebten Schwestern, Deutschland, 2014.https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

Irmãs Amadas é um filme alemão de Dominik Graf, de 2014, com Hannah Herzsprung, Florian Stetter e Henriette Confurius.

A história desenrola-se no verão de 1788 em Rudolstadt onde o jovem e conceituado poeta revolucionário Friedrich Schiller e duas irmãs da decadente aristocracia da Turíngia, vivem um tempo inesquecível que os irá unir para sempre. Caroline von Beulwitz, infeliz no casamento, e a sua recatada irmã Charlotte von Lengenfeld fazem um pacto de um amor a três, onde, inevitavelmente, alguém vai sair a perder. A trama coloca então o enfoque num jovem poeta que, idilicamente, acredita amar as duas irmãs, num contexto de desespero e escândalo.

É um filme com algum interesse, mais não seja por retratar esse episódio inusitado da breve vida de Schiller, um dos maiores expoentes do romantismo alemão.

Nota: 8/10

Azul: História de uma cor

capa_azul_grandeAZUL: História de uma cor

Uma das leituras mais interessantes do ano que passou foi a tradução para português, por parte da editora Orfeu Negro, da obra Bleu: Histoire d’une couleur, de Michel Pastoureau, publicado no original, em 2006, pela Éditions du Seuil.

O livro percorre mais de dois mil anos de um fenómeno deveras curioso: a forma como culturalmente se institucionalizou a cor azul e como se hierarquizou o seu valor estético e simbólico.

O azul passou de uma cor marginal, insignificante – há quem admita até que no mundo greco-romano fora uma cor inexistente – até adquirir, desde século XII à actualidade – um estatuto imponente de gosto e preferência, em praticamente todo o mundo ocidental. Michel Pastoureau, o historiador, consegue, em mais de duzentas páginas, construir uma narrativa fascinante de descoberta (que vem desde o indigo e o pastel dos tintureiros) até à forma como, acima das diversas contingências histórico-sociais, se procurou encontrar uma simbologia existencial. Essa trajectória foi capaz de traduzir toda uma natureza enigmática e mística com que esta cor específica se implementou na construção cultural e social europeia.

Azul: História de uma cor traz ao leitor o mundo misterioso da estética e da ética de uma cor difícil, durante vários séculos estranha ao homem europeu e que, pela sua natureza exuberante, causou primeiro repulsa e depois fascínio e deslumbre. O azul foi como um sonho ou um desejo que se impôs à própria vontade. Este é um livro muito estranho mas absolutamente delicioso. Vale bem a leitura.

©Hélder Filipe Azevedo, 10.1.2017