Série – 1992

1992_mille_novecento_novantadue_tv_series-188422000-large1992 foi uma dramática série italiana, de 10 episódios, de 2015, criada por Alessandro Fabbri e produzida pela Sky Atlantic. Passou recentemente na RTP2.

A trama desenrola-se nesse famigerado ano de 92, onde num mesmo palco atuam a política (a queda dos socialistas e dos democratas cristão e a ascensão da Liga Norte), a justiça (Operação Mãos Limpas e Assassinato de Giovanni Falconi), a máfia (um poder inefável), o mundo do espetáculo (o surgimento da televisão privada onde se jogam redes de influência, já com um Berlusconi mediático) e o desalento de quem vê um país maldito à procura de renascer. É uma daquelas descobertas pelas quais agradecemos pela existência de um serviço público de televisão.

Para gáudio de quem gostou, é importante salientar ainda que foram encomendadas duas sequelas: 1993 e 1994, o que augura algo de muito bom.

Numa nota pessoal, confesso que há dois países europeus que me fascinam particularmente: a Alemanha e a Itália. Analisados filosoficamente, faço sempre um paralelo com F. Nietzsche e o seu Apolíneo e o Dionisíaco. A Alemanha simboliza, para mim, o deus Apolo, o deus da ordem, da mesura, da razão, enquanto a Itália parece-se mais com o deus Dióniso, o deus do excesso, do vinho, das festas bacantes ou orgiásticas e, afinal, do sentimento ingénuo e primitivo. Dois extremos fascinantes para quem olha ao longo.

Sobre a série, só posso recomendar efusivamente. É uma série excepcional.

A Morte de um Teólogo

melanchthon

Melanchthon, de Lucas Cranach, 1532

A Morte de um Teólogo, de Jorge Luis Borges

Na magnífica compilação de contos intitulada História Universal da Infâmia, o escritor argentino, Jorge Luis Borges, de ascendência judaico-portuguesa, conta-nos a história post mortem de Philip Melanchthon, um dos mais importantes teólogos luteranos. Para os luteranos, desses primeiros tempos, a fé ocupava todo o espaço na relação da criatura com o criador. Esquecerem-se dos valores humanos que caracterizavam a natureza de um cristão: a bondade, a tolerância, a humildade e, essencialmente, a caridade. O conto pretende salientar a importância precisamente da caridade. Reza assim a história:

“Os anjos comunicaram-me que quando morreu Melanchton, foi-lhe proporcionada no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade lhes aconteceu o mesmo e por isso creem que não morreram.) Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a secretária com as suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton acordou nessa morada recomeçou as suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver e escreveu durante uns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse uma só palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas interrogá-lo. Melanchton disse-lhes: “Demonstrei já irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta a fé.” Dizia essas coisas com soberba e não sabia que já estava morto e que o seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os móveis começaram a tornar-se fantasmas até serem invisíveis, exceto a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disto, as paredes do aposento mancharam-se de cal, e o soalho de um verniz amarelo. A sua própria roupa já era muito mais ordinária. Continuava, contudo, a escrever, mas como persistia na negação da caridade, levaram-no para uma oficina subterrânea, onde havia outros teólogos como ele. Aí esteve uns dias encarcerado e começou a duvidar da sua tese e permitiram-lhe regressar. A sua roupa era de couro não curtido, mas tratou de imaginar que o passado fora uma mera alucinação e continuou a exaltar a fé e a denegrir a caridade. Um entardecer, teve frio. Então percorreu a casa e comprovou que os outros compartimentos já não correspondiam aos da sua habitação na Terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro havia diminuído tanto que era impossível entrar; outro não mudara, mas as suas janelas e as suas portas davam para grandes dunas. O compartimento do fundo estava cheio de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio como ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham cara e outras pareciam mortos, acabou por detestá-las e desconfiar. Então resolveu escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque as escrevia sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta, mas tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para lhes fazer crer que estavam no céu, entendeu-se com um bruxo do compartimento do fundo, e este enganava-os com simulacros de esplendor e serenidade. Logo que as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, por vezes até um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem cara o levaram para as dunas e que agora é como um servo dos demónios.”

Fonte: BORGES, Jorge Luis, História Universal da Infâmia. Lisboa: Editora Quetzal, 2015, pp. 85-87.

Keys of Heaven (2014)

Keys_of_Heaven_1.60Em 1984, o Imã Khomeini, líder espiritual e político do Estado Teocrático do Irão, decide convocar todos os homens entre os 12 e os 72 anos para a guerra santa (guerra contra o Iraque). 500.000 pequenas chaves de plástico são importadas de Taiwan e entregues aos jovens soldados, que vão para a frente de combate. É-lhes dito que essa chave abre as portas do paraíso.

Keys of Heaven (Paratiisin Avaimet) é uma curta metragem de 2014, do realizador Hami Ramezan, que retrata o impacto que esta manipulação teve sobre a sociedade iraniana e, particularmente, sobre a juventude. É um filme muito interessante e comovente. Felizmente está disponível no canal Arte.tv, o inconveniente é que possui legendas apenas em alemão e francês.

Filme:

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Trailer:

YOUNG MR. LINCOLN (1939)

young_mr_lincolnYoung Mr. Lincoln é um extraordinário filme de John Ford, de 1939, com Henry Fonda, sobre a juventude de Abraham Lincoln, um jovem lenhador do Kentucky que decide estudar leis (de forma autodidacta, naquilo que encarna bem o espírito de formar-se a si mesmo, do conceito alemão de Bildung) e advogar em defesa dos mais pobres e desprotegidos de uma sociedade ainda difusa.

Após resolver casos menores de direito civil e de âmbito patrimonial, o seu primeiro caso sério será a defesa penal de dois jovens irmãos, acusados de, durante as festas na cidade, terem assassinado um homem. A trama segue assim o momento do infeliz acontecimento, passando pela tentativa de linchamento até ao julgamento final. Podemos contemplar aí todo o aspecto mítico que encobre a figura do herói e toda a sua capacidade para as artes da oratória, da política e do direito. Lincoln foi, de facto, um homem superior.

Filmado num contexto de particular enlevo patriótico, há, nesta obra, uma espécie de chamamento para a bondade, a justiça e, acima de tudo, a necessidade de cada ser humano se cumprir historicamente, isto é, perseguir os sonhos, ainda que a glória, ainda que a felicidade, sejam transitórias, sejam até ilusões ou um fogo fátuo.

De salientar ainda que Abraham Lincoln viria a ser o 16º Presidente dos EUA, entre 1861 e a data do seu assassinato, 15.04.1865.

O filme é uma obra prima do cinema americano. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

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Nota: A edição espanhola está muito bem constituída, com um disco de extras que inclui, entre outros, uma entrevista de John Ford para a BBC, em 1968.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Thomas Baines (1820-1875)

Os artistas sempre têm algum estranho capricho
com o qual a gente sensata nunca sonharia…

Thomas Baines

Nascido em Inglaterra, a 27.11.1820, Thomas Baines passou grande parte da sua vida a explorar o sul do continente africano (nomeadamente a África do Sul. Foi um importante explorador do século XIX. Em 1855, por mérito próprio, integrou a expedição de Augustus Gregory às costas tropicais do norte da Austrália, numa viagem de grande impacto no seu trabalho de desenho e pintura. Pode ser considerado como um pintor naturalístico de pendor antropológico, legando-nos uma obra fascinante, digna de admiração pela própria Rainha Vitória, que chegou a mostrá-la aos seus filhos. Algumas das suas pinturas são autênticas representação desse paraíso intocado, aberto à exploração e ao espanto.

Baines, Thomas, 1820-1875; Manufacture of Sugar at Katipo

Manufacture of sugar at Katipo

© Hélder Filipe Azevedo, 2017.

ARTHUR RIMBAUD: Cartas de África

9788493856878Livro: RIMBAUD, Arthur, Lettere dall’Africa. Edizioni Nuages, 1991.

Mais qui sait combien peuvent durer mes jours dans ces montagnes-ci? Et je puis disparaître, au milieu de ces peuplades, sans que la nouvelle en ressorte jamais.

Magnífica coletânea das cartas do poeta Arthur Rimbaud, com ilustrações de Hugo Pratt (Corto Maltese), escritas durante a sua estadia em África, mais propriamente em Harar, na Etiópia.

As cartas denotam uma espécie de viagem transcendental, que vai do purgatório ao inferno, num poeta considerado maldito que tentou reconstruir permanentemente a sua trágica e escandalosa vida. A materialização de um sonho, a realização de um idealismo, é, muitas vezes, uma transposição brutal entre dois estádios existenciais antagónicos. A vida de Rimbaud é toda essa tragédia de quem, perdido no mundo, em angústia, quis viver na totalidade. Foi atormentado por essas doenças do espírito que enlouquecem um homem.

Na última carta, o desolado e conformado Rimbaud responde a sua mãe: “Não vos assusteis com tudo isto. Virão dias melhores. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, de tantas privações e de tantas penas. Ah, que miserável é a nossa vida!“.

Rimbaud morre a 10 de Novembro de 1891, doente e sozinho, em Marselha, depois de duas infrutíferas tentativas de retornar à sua amada Etiópia. Legou-nos contudo uma poesia misteriosa e profundamente inquietante. É uma das grandes referências dessa estrutura conformadora, vital, a que damos o nome de cultura europeia.

©Hélder Filipe Azevedo, 2017

 

“O Julgamento de Tóquio” na Netflix

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A Netflix tem disponível esta fascinante minissérie de 4 episódios sobre o julgamento de Tóquio, onde foram a juízo a cúpula do Estado nipónico responsável pelas atrocidades no decurso da segunda guerra mundial.

Tal como em Nuremberga (julgamento das chefias e de organizações do Estado Nazi), também em Tóquio se procurau criar jurisprudência em matéria de Direito Internacional Público, nomeadamente nos casos de crimes de guerra, de agressão e crimes contra a humanidade. Ainda hoje não sabemos bem que tipo de justiça foi produzida aí e ficaram muitas questões por resolver, mas, apesar de tudo, tentou-se que a história não calasse a voz das vítimas. Vale a pena ver! https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

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