A Morte de um Teólogo

melanchthon

Melanchthon, de Lucas Cranach, 1532

A Morte de um Teólogo, de Jorge Luis Borges

Na magnífica compilação de contos intitulada História Universal da Infâmia, o escritor argentino, Jorge Luis Borges, de ascendência judaico-portuguesa, conta-nos a história post mortem de Philip Melanchthon, um dos mais importantes teólogos luteranos. Para os luteranos, desses primeiros tempos, a fé ocupava todo o espaço na relação da criatura com o criador. Esquecerem-se dos valores humanos que caracterizavam a natureza de um cristão: a bondade, a tolerância, a humildade e, essencialmente, a caridade. O conto pretende salientar a importância precisamente da caridade. Reza assim a história:

“Os anjos comunicaram-me que quando morreu Melanchton, foi-lhe proporcionada no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. (A quase todos os recém-chegados à eternidade lhes aconteceu o mesmo e por isso creem que não morreram.) Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a secretária com as suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton acordou nessa morada recomeçou as suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver e escreveu durante uns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse uma só palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omissão e mandaram pessoas interrogá-lo. Melanchton disse-lhes: “Demonstrei já irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que para ingressar no céu basta a fé.” Dizia essas coisas com soberba e não sabia que já estava morto e que o seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram esse discurso abandonaram-no.

Poucas semanas depois, os móveis começaram a tornar-se fantasmas até serem invisíveis, exceto a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disto, as paredes do aposento mancharam-se de cal, e o soalho de um verniz amarelo. A sua própria roupa já era muito mais ordinária. Continuava, contudo, a escrever, mas como persistia na negação da caridade, levaram-no para uma oficina subterrânea, onde havia outros teólogos como ele. Aí esteve uns dias encarcerado e começou a duvidar da sua tese e permitiram-lhe regressar. A sua roupa era de couro não curtido, mas tratou de imaginar que o passado fora uma mera alucinação e continuou a exaltar a fé e a denegrir a caridade. Um entardecer, teve frio. Então percorreu a casa e comprovou que os outros compartimentos já não correspondiam aos da sua habitação na Terra. Um estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro havia diminuído tanto que era impossível entrar; outro não mudara, mas as suas janelas e as suas portas davam para grandes dunas. O compartimento do fundo estava cheio de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio como ele. Essa adoração agradou-lhe, mas como algumas dessas pessoas não tinham cara e outras pareciam mortos, acabou por detestá-las e desconfiar. Então resolveu escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam apagadas amanhã. Isso aconteceu porque as escrevia sem convicção.

Recebia muitas visitas de gente recém-morta, mas tinha vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para lhes fazer crer que estavam no céu, entendeu-se com um bruxo do compartimento do fundo, e este enganava-os com simulacros de esplendor e serenidade. Logo que as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, por vezes até um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem cara o levaram para as dunas e que agora é como um servo dos demónios.”

Fonte: BORGES, Jorge Luis, História Universal da Infâmia. Lisboa: Editora Quetzal, 2015, pp. 85-87.

Keys of Heaven (2014)

Keys_of_Heaven_1.60Em 1984, o Imã Khomeini, líder espiritual e político do Estado Teocrático do Irão, decide convocar todos os homens entre os 12 e os 72 anos para a guerra santa (guerra contra o Iraque). 500.000 pequenas chaves de plástico são importadas de Taiwan e entregues aos jovens soldados, que vão para a frente de combate. É-lhes dito que essa chave abre as portas do paraíso.

Keys of Heaven (Paratiisin Avaimet) é uma curta metragem de 2014, do realizador Hami Ramezan, que retrata o impacto que esta manipulação teve sobre a sociedade iraniana e, particularmente, sobre a juventude. É um filme muito interessante e comovente. Felizmente está disponível no canal Arte.tv, o inconveniente é que possui legendas apenas em alemão e francês.

Filme:

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Trailer:

YOUNG MR. LINCOLN (1939)

young_mr_lincolnYoung Mr. Lincoln é um extraordinário filme de John Ford, de 1939, com Henry Fonda, sobre a juventude de Abraham Lincoln, um jovem lenhador do Kentucky que decide estudar leis (de forma autodidacta, naquilo que encarna bem o espírito de formar-se a si mesmo, do conceito alemão de Bildung) e advogar em defesa dos mais pobres e desprotegidos de uma sociedade ainda difusa.

Após resolver casos menores de direito civil e de âmbito patrimonial, o seu primeiro caso sério será a defesa penal de dois jovens irmãos, acusados de, durante as festas na cidade, terem assassinado um homem. A trama segue assim o momento do infeliz acontecimento, passando pela tentativa de linchamento até ao julgamento final. Podemos contemplar aí todo o aspecto mítico que encobre a figura do herói e toda a sua capacidade para as artes da oratória, da política e do direito. Lincoln foi, de facto, um homem superior.

Filmado num contexto de particular enlevo patriótico, há, nesta obra, uma espécie de chamamento para a bondade, a justiça e, acima de tudo, a necessidade de cada ser humano se cumprir historicamente, isto é, perseguir os sonhos, ainda que a glória, ainda que a felicidade, sejam transitórias, sejam até ilusões ou um fogo fátuo.

De salientar ainda que Abraham Lincoln viria a ser o 16º Presidente dos EUA, entre 1861 e a data do seu assassinato, 15.04.1865.

O filme é uma obra prima do cinema americano. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

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Nota: A edição espanhola está muito bem constituída, com um disco de extras que inclui, entre outros, uma entrevista de John Ford para a BBC, em 1968.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Thomas Baines (1820-1875)

Os artistas sempre têm algum estranho capricho
com o qual a gente sensata nunca sonharia…

Thomas Baines

Nascido em Inglaterra, a 27.11.1820, Thomas Baines passou grande parte da sua vida a explorar o sul do continente africano (nomeadamente a África do Sul. Foi um importante explorador do século XIX. Em 1855, por mérito próprio, integrou a expedição de Augustus Gregory às costas tropicais do norte da Austrália, numa viagem de grande impacto no seu trabalho de desenho e pintura. Pode ser considerado como um pintor naturalístico de pendor antropológico, legando-nos uma obra fascinante, digna de admiração pela própria Rainha Vitória, que chegou a mostrá-la aos seus filhos. Algumas das suas pinturas são autênticas representação desse paraíso intocado, aberto à exploração e ao espanto.

Baines, Thomas, 1820-1875; Manufacture of Sugar at Katipo

Manufacture of sugar at Katipo

© Hélder Filipe Azevedo, 2017.

ARTHUR RIMBAUD: Cartas de África

9788493856878Livro: RIMBAUD, Arthur, Lettere dall’Africa. Edizioni Nuages, 1991.

Mais qui sait combien peuvent durer mes jours dans ces montagnes-ci? Et je puis disparaître, au milieu de ces peuplades, sans que la nouvelle en ressorte jamais.

Magnífica coletânea das cartas do poeta Arthur Rimbaud, com ilustrações de Hugo Pratt (Corto Maltese), escritas durante a sua estadia em África, mais propriamente em Harar, na Etiópia.

As cartas denotam uma espécie de viagem transcendental, que vai do purgatório ao inferno, num poeta considerado maldito que tentou reconstruir permanentemente a sua trágica e escandalosa vida. A materialização de um sonho, a realização de um idealismo, é, muitas vezes, uma transposição brutal entre dois estádios existenciais antagónicos. A vida de Rimbaud é toda essa tragédia de quem, perdido no mundo, em angústia, quis viver na totalidade. Foi atormentado por essas doenças do espírito que enlouquecem um homem.

Na última carta, o desolado e conformado Rimbaud responde a sua mãe: “Não vos assusteis com tudo isto. Virão dias melhores. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, de tantas privações e de tantas penas. Ah, que miserável é a nossa vida!“.

Rimbaud morre a 10 de Novembro de 1891, doente e sozinho, em Marselha, depois de duas infrutíferas tentativas de retornar à sua amada Etiópia. Legou-nos contudo uma poesia misteriosa e profundamente inquietante. É uma das grandes referências dessa estrutura conformadora, vital, a que damos o nome de cultura europeia.

©Hélder Filipe Azevedo, 2017

 

“O Julgamento de Tóquio” na Netflix

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A Netflix tem disponível esta fascinante minissérie de 4 episódios sobre o julgamento de Tóquio, onde foram a juízo a cúpula do Estado nipónico responsável pelas atrocidades no decurso da segunda guerra mundial.

Tal como em Nuremberga (julgamento das chefias e de organizações do Estado Nazi), também em Tóquio se procurau criar jurisprudência em matéria de Direito Internacional Público, nomeadamente nos casos de crimes de guerra, de agressão e crimes contra a humanidade. Ainda hoje não sabemos bem que tipo de justiça foi produzida aí e ficaram muitas questões por resolver, mas, apesar de tudo, tentou-se que a história não calasse a voz das vítimas. Vale a pena ver! https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

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Sven Hedin (1865-1952)

“Nunca caminho sobre as minhas próprias pegadas. Vai contra a minha religião.”

Hedin foi um geógrafo sueco que teve a audácia de, no final do século XIX, atravessar o deserto Taklamakan (que significa “lugar sem retorno”). Registou nos seus diários todas as aventuras que viveu no oriente e pintou zonas desconhecidas dos europeus. Foi um personagem carismático mas de reputação duvidosa. Acima temos uma pintura que retrata Shigatse Dzong, a segunda cidade do Tibet, uma cidade proibida aos estrangeiros, mas que Hedin ousou contemplar em surdina, escondido, a partir das portas da cidade. Pintou-a de memória.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Vita Activa: O Espírito de Hannah Arendt

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VITA ACTIVA: O Espírito de Hannah Arendt. Ada Ushpiz, Israel/Canada, 2015. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

WINNER – BEST DOCUMENTARY – SANTA BARBARA FILM FESTIVAL

Documentário fascinante, realizado por Ada Ushpiz, sobre a filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt (1906-1975), uma das maiores pensadoras do século XX.

Este é, sem sombra de dúvidas, um dos filmes mais interessantes que veremos no presente ano. No essencial, o documentário compila um conjunto de gravações históricas, de entrevistas e opiniões sobre os temas fundamentais da vida – desde a sua infância, passando por Heidegger, seu amante, e Jaspers, seu mentor, até à sua velhice submergida num misticismo hebraico – e da obra da filósofa.

Hannah Arendt legou à humanidade do século XX em diante um pensamento profundo sobre as temáticas do poder, da história e do mal. Vale a pena conhecer um pouco do seu profundo e original pensamento. Também é uma forma de nos conhecermos a nós mesmos e ao estranho mundo que nos rodeia.

TOTALITARISMO E A BANALIDADE DO MAL

O mal é um fenómeno superficial. Resistimos ao mal não nos deixando arrastar sem pensar pela aparência da superfície das coisas convencionais. Por outras palavras: quanto mais superficial é uma pessoa, mais provável é que ceda ao mal. É essa a banalidade do mal.

O uso de lugares-comuns sinaliza essa mesma superficialidade.

A demência da manufactura massiva de cadáveres do nazismo foi precedida pela preparação histórica dos cadáveres vivos dos refugiados.

Cada ser humano é uma criatura que pensa, capaz de reflectir tão bem como eu, e é portanto capaz de julgar por si mesmo se o quiser fazer. Pensar significa sempre pensar de um modo crítico. E pensar de um modo crítico significa que o pensamento mina as regras rígidas e as convicções generalizadas.

full3Tudo o que se passa no pensamento pode ser escrutinado. Isto significa que não existem pensamentos perigosos, porque pensar é em si mesmo um empreendimento muito perigoso. Penso que o não pensamento é ainda mais perigoso.

O mal é sempre gerado pela necessidade, sem escolha, em nome do futuro.

O problema dos regimes totalitários não é o facto de jogarem à política do poder de um modo especialmente implacável, mas de, por trás da sua política, se ocultar um conceito inteiramente novo e enganador da realidade: o idealismo, é uma fé inabalável num mundo ideologicamente fictício, mais do que a mera luxúria do poder.

O mal é ideológico. Satã é ele próprio um idealista.

O mal não é apenas minucioso, é também sentimental.

A banalidade do mal é a estratégia perfeita para a penetração do mal no mundo.

A velha máxima: é melhor sofrer o Mal do que ser um agente do Mal, é verdadeira? Sócrates disse repetidas vezes que essa máxima não pode ser provada. Por um lado, é absolutamente evidente. Por outro, não há provas de que deva agir deste modo. Porque há então pessoas para quem se trata de uma máxima evidente? Esta máxima presume que eu vivo comigo mesmo, ou seja, que sou duas pessoas em uma, e digo a mim mesmo: “Não quero fazer isto”, porque não quero viver com alguém que o faz. Uma pessoa viver consigo mesma significa falar consigo mesma. É esta a base do pensamento, e é de facto uma forma de pensamento que não é técnica e de que qualquer homem é capaz.

full2Entrevistador: Não é verdade que a responsabilidade parcial que um indivíduo assume sepulta a consciência moral? Eichmann disse: “Sentei-me à minha secretária e fiz o meu trabalho.” E o antigo chefe de distrito de Danzig explicou que a sua alma oficial sempre se identificou com aquilo que fez, mas que a sua alma pessoal se lhe opunha. H. Arendt: É um fenómeno conhecido como a emigração interior entre assassinos. A actividade febril causa ela própria uma resposta de dissolução. Há uma frase idiomática em inglês: “Stop and think”, parar para pensar. Ninguém pode pensar sem parar. Quando alguém se vê obrigado a imergir em actividades constantes, ou se deixa escravizar por elas, a história repete-se. Haverá sempre uma situação que impede o despertar do sentido de responsabilidade. Este só pode despertar quando uma pessoa reflecte, não apenas sobre si mesma, mas também sobre o que está a fazer.

Temos de compreender que num regime totalitário se gera um fenómeno de desamparo. E temos de compreender que, mesmo quando uma pessoa está em desamparo absoluto, continua a haver diferentes possibilidades de reagir. Isto não significa que uma pessoa deva tornar-se criminosa. O tipo de passado que não pode ser deixado para trás é muito diferente entre vítima e perpetrador.

Eis um pensamento perigoso: Onde não há responsabilidade, não há culpa. Onde não há culpa, não há crime. Onde não há crime, não há vítima.

O perdão e a vingança pertencem um ao outro. Aquele que perdoa renuncia à vingança, porque também ele podia ser culpado. O vingador não quer perdoar, porque tem uma oportunidade de voltar àquilo que lhe foi feito. A reconciliação, no entanto, não perdoa nem aceita, antes julga.