Filme da Semana: Tom of Finland (2017)

tom_of_finlandTOM OF FINLAND. Dome Karukoski, Finland/Sweden/Denmark/Germany/Iceland/USA, 2017. https://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpghttps://i1.wp.com/i.istockimg.com/file_thumbview_approve/18661172/3/stock-photo-18661172-five-pointed-star.jpg

Tom of Finland é uma co-produção nórdico-americana, de 2017, candidato da Finlândia aos Óscares de 2018, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, que aborda a génese biográfica desse significativo ícone da cultura queer. Na pré-história da existência humana, ou seja, quando não havia internet, nem nada que se parecesse, a revista, o panfleto e a fotografia eram basicamente os únicos meios capazes de difundir e generalizar o erotismo em geral e o homoerotismo em particular. O criador deste homem extremamente musculado e vestido a justo cabedal, Touko Laaksonen, um decorador e publicista finlandês, soldado de guerra, quando a Finlândia foi invadida pela Rússia de Estaline, e crítico da forma como os homossexuais eram tratados no seu país, é biografado de uma forma esteticamente honesta. Fascinado desde tenra idade com o corpo masculino, viveu esse duro  embate com os conceitos sociais de proibição, crime e pecado. Foi obrigado a viver demasiado tempo na escuridão, escondido na mentira, num lugar de hipocrisia. Tudo era proibido nessa Finlândia fria, outrora dominada por um império eslavo, um país luterano e ainda impregnado de algumas ideias (políticas, religiosas, sociais, culturais, etc) profundamente conservadoras. O autor ousou transpor as fronteiras da pequenez finlandesa e exportar um produto ousado e irreverente, que viria a tornar-se objecto de culto de uma geração de homens que aspiravam à chamada libertação gay. Conseguiu-o nos Estados Unidos dos anos 60, 70 e 80. A popularização dos seus desenhos demorou a chegar a uma Europa sempre tão complicada e em permanente contradição.

Proibido em mais de 50 países, injustificadamente, o filme é interessante e nada controverso. Reafirmo que apenas retrata a vida desse homem singelo que ousou objectivar artisticamente a fantasia e os desejos reprimidos de muitos homens que sofreram na pele uma ditadura de conformação. O filme é um documento valioso porque desmistifica os habituais clichés que povoam todo o imaginário daqueles que, pela ignorância ou pelo medo, se recusam a conhecer ou reconhecer o direito à diversidade.

Nas palavras do realizador:

“Dedicámos cinco anos a investigar a vida do Tom of Finland porque, embora ele seja uma referência mundial da arte gráfica e da cultura gay, poucos conhecem verdadeiramente a sua história de vida, que é extremamente interessante e se mantém inspiradora nos tempos que correm”

Um filme estética e historicamente muito interessante.

Nota: 8/10

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Face to face in a river in Borneo

Photo by Jayaprakash Joghee Bojan — National Geographic Your Shot

Uma fotografia absolutamente enigmática e fascinante.

Como bem perguntou Jacques Derrida: Como será vermo-nos vistos pelos olhos de um animal?

While looking for wild orang-utans in Tanjung putting national park, Indonesia, we witnessed this amazing sight of this huge male crossing a river despite the fact there were crocodiles in the river. Rapid palm oil farming has depleted their habitat and when pushed to the edge these intelligent creatures have learnt to adapt to the changing landscape, This is proof considering orang-utans hate water and never venture into a river. I got into the 5 feet deep river to get this perspective.

Fonte: Face to face in a river in Borneo Photo by Jayaprakash Joghee Bojan — National Geographic Your Shot

Steve McCurry: Afghanistan

A Taschen acaba de publicar uma magnífica compilação de fotografias do Afeganistão, tiradas pelo magestoso fotógrafo Steve McCurry. O livro custa entre as 50 e 60 Euros. O livro proporciona uma autêntica viagem por este país tão trágico, mas tão misterioso e fascinante.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

LIVRO: Vinte Dias na Rússia

consiglieri_Pedrozo_20dias_RussiaZófimo Consiglieri Pedrozo, um geógrafo, jornalista, escritor e político português, em agosto de 1896, aventurou-se 20 dias na ainda Rússia Imperial, esse país feudal tão imenso e desconhecido, já no estertor da sua longa existência. Atravessou todo um continente, qual rota mítica, para chegar a São Petersburgo (a capital do império), e a partir daí encetar uma travessia que o levaria igualmente a Tver, Koltsovo e Moscovo.

Ao longo dessa jornada gloriosa, deparou-se com uma terra inóspita e, ao mesmo tempo, fértil, com gente humilde mas orgulhosa, com monumentos estranhos mas ímpares e deslumbrantes, num misto de sonho e de vigília. Quis o autor conhecer a pátria desses grandes vultos da literatura mundial, como Turgeniev, Tolstoi, Dostoievski, Pushkin, e muitos outros que, com excelso talento, se dignaram mergulhar na Rússia profunda, até às entranhas, e exaltar esse espírito contraditório das estepes. Consiglieri Pedrozo chegou inclusive a aprender russo, nos meses que antecederam a viagem, para poder ler e melhor entender um povo tão enigmático e uma cultura tão rica e singular. Filosoficamente, não foi um processo de assimilação mas de puro conhecimento e fruição.

Este é um livro um pouco especial para mim, porque, precisamente, me lembrou dos mesmos passos com que visitei esse grande país eslavo. É evidente que se trata de uma outra Rússia, transmutada por novas guerras, revoluções e experiências políticas e sociais difíceis, mas o seu espírito continua aí, entre nós, com semelhante vivacidade e procura a mesma ânsia de existência que qualquer outra nação, seja ela a portuguesa, a alemã ou esse grande dragão asiático, a China (com quem, inclusive, a Rússia faz fronteira).

Com uma descrição pormenorizada das ruas, dos rios, das catedrais, dos jardins e das pessoas, o autor quis iluminar esse desconhecido, retirar um véu opaco, e partilhar as memórias desse lugar nos antípodas do nosso continente. A Rússia, qual Janus, olha permanentemente para ocidente e para oriente. É um amante indeciso, que não consegue, definitivamente, escolher entre dois amores absolutos.

É uma experiência totalmente recomendável (a viagem e a leitura deste pequeno mas delicioso livro).

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

I AM NOT YOUR NEGRO

iamnotyournegroI Am Not Your Negro é um magnífico documentário de 2016, de 1h30m, realizado por Raoul Peck, numa co-produção EUA, França, Suiça e Bélgica. É baseado na obra inacabada de James Baldwin, Remember this house, uma obra de apenas 30 páginas, pretenciosa, inacabada, que pretendia versar sobre a questão racial nos Estados Unidos da América com o foco centrado na vida, na luta e na morte, todos assassinados, dos três expoentes máximos do movimento negro de libertação e de revindicação de direitos civis e políticos: Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers.

Ao longo de 90 minutos o espectador é confrontado com um conjunto de histórias cruas e crueis e imagens de gente heróica, capaz de se sacrificar por um mundo mais justo e equitativo. E vemos, além disso, actos cotidianos de imensa coragem, alguns dos mais impactantes a serem praticados por mulheres negras, como Rosa Parks e Dorothy Counts, que merecem um permante louvor e uma perpétua admiração.

No fundo, todo o documentário é uma lição de história, não apenas dos Estados Unidos, mas uma história dessa natureza humana vil e sedenta de dominação. Talvez este documentário devesse e merecesse ser de visionamento obrigatório na educação dos jovens de todo o mundo. A sua pretensão é, fundamentalmente, memoralista e educacional.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

O herem de Espinosa

SpinozarHerem, na cultura judaica, significa censura. É aplicado a quem cometa uma ofensa grave que atente, essencialmente, contra os valores inerentes ou teologicamente substanciais da própria religião e aos seus preceitos mais distintivos. Equivale à Excomunhão na religião católica. Em 1656 foi publicado em Amesterdão, na Theba, o herem contra Baruch de Espinosa, um filósofo racionalista, filho de judeus portugueses exilados.

No excerto do herem de Espinosa podemos compreender o poder da linguagem e como um exercício de crueldade pode ser tão belo e luminoso.

   “Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinosa seja excomunhado e apartado de toda nação de Israel como actualmente o põe em herem, com o Herem seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós Excomunhamos, apartamos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, como o herem que excomunhou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então semeie o furor de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados (três palmos, isto é, 0,66m; cúbito), nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

herem_espinosaEis como as palavras podem ser como um punhal, como diria o poeta português Eugénio de Andrade. Depois de ler este acto de maldição, ninguém fica indiferente ao poder que a linguagem consegue encerrar em si mesma. Espinosa sobreviveu. Antes dele, um outro filósofo judeu, português radicado na Holanda, Uriel da Silva, não aguentara a humilhação e suicidara-se!

A linguagem do herem de Espinosa é, para mim, o exemplo maior da violência sem o uso da força. E é um bom motivo de reflexão.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

Pierre Teilhard de Chardin: A Nostalgia da Frente

Pierre Teilhard de Chardin foi um importante teólogo francês do século XX. Nasceu em Sacernat, a 1 de Maio de 1881 e foi o quarto filho de uma família de onze irmãos. Entrou para os jesuítas em 1899 e estudou filosofia e teologia. Entre 1906 e 1908 foi professor de Física no Cairo, onde adquire um certo gosto pela geologia e paleontologia. Foi ordenado padre em Hastings, em 1912.

Entre 1914-18 é recrutado para a grande guerra, lutando na frente de batalha, inserido no 4º Regimento de Zuavos, com o posto de Sargento-enfermeiro. No fim da guerra é agraciado com a Medalha Militar e a Legião de Honra.

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Em 1922, doutora-se em ciências e exerce o professorado no Instituto Católico de Paris. A partir de 1923 começam as suas expedições um pouco por todo o mundo. Vai à China, à Somália, à Birmânia, à África do Sul e à Índia.

Em 1950 é eleito membro da Academia Francesa de Ciências. É-lhe oferecido uma cátedra no Collège de France, mas não aceitou. É nomeado então adido da fundação americana para investigações antropológicas. A partir de 1951 fixa-se em Nova Iorque, mas em 1953 parte numa segunda missão à África do Sul. No fim, passa dois meses na sua França natal.

Morre em Nova Iorque a 10 de Abril de 1955, no dia de Páscoa.

Na sua obra Escritos do Tempo da Guerra expões o seu existencialismo puro e um espiritualismo cósmico que permanece pouco explorado. A meio da obra escreve um capítulo intitulado A Nostalgia da Frente onde materializa no papel toda essa experiência radical que viveu na frente de batalha. Para se compreender o alcance dessa exposição, pode escutar, acima, uma recitação da introdução ao capítulo.

Citação:

“(…) a Frente permanece para mim o Continente, cheio de mistérios e de perigos, que surgiu no nosso Universo de reconhecida falsificação. Vislumbro-o sempre como a fronteira do Mundo conhecido, a «Terra prometida» aberta aos audaciosos, a orla de no man’s land… 

Aqueles que sofreram, até à morte, de sede ou de frio, não podem mais esquecer os desertos ou os bancos de gelo onde experimentaram o extraordinário inebriamento de estarem sós e serem pioneiros.”

Em 1956, já depois da sua morte, é feita uma recolha e uma compilação dos seus relatos de viagem. Recebeu o nome de Lettres de Voyage. Aqui somos levados pelos caminhos do mundo e da vida de um homem que ousou viver intensamente.

© Hélder Filipe Azevedo, 2017

“Apenas a fantasia permanece jovem para sempre; o que nunca ocorreu, jamais poderá envelhecer”. Schiller